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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Extremos de Nachtergaele: ator será Joãosinho Trinta e Zé do Caixão no cinema


O ator Matheus Nachtergaele disse em entrevista concedida à Agência Efe em Lisboa que interpretará o carnavalesco Joãosinho Trinta e o cineasta José Mojica Marins, criador e intérprete do personagem Zé do Caixão, em dois filmes que serão rodados em 2010. Nachtergaele, que estreou como diretor no ano passado com o premiado "A festa da menina morta", exibido inclusive no Festival de Cannes, expressou seu desejo de continuar trabalhando na direção.

"Tenho um filme em mente, quero fazer um 'Woyzeck' (peça de teatro escrita por Georg Büchner) com índios brasileiros na reserva de Dourados, no Mato Grosso do Sul", revelou Nachtergaele, que esteve em Lisboa para a 4ª Mostra de Cinema Brasileiro.

Expressionista

Escrita no início do século XIX, "Woyzeck" - obra que já foi adaptada para o cinema pelo diretor alemão Werner Herzog - é considerada como uma peça que inaugura o estilo expressionista no teatro, já que critica as condições sociais criadas pelo capitalismo. Este aspecto, segundo Nachtergaele, encaixaria na história dos índios sul-americanos, aos quais "tudo foi negado".

Além disso, o ator, que já interpretou o papel do soldado Woyzeck no teatro, revelou que rodar seu primeiro filme em uma comunidade da Amazônia foi uma "decisão política", embora o filme não tenha esse conteúdo. "Não é diretamente político, mas é um filme sobre essa gente, um filme poético que quer entender quem são essas pessoas", explica Nachtergaele, que escolheu trabalhar com atores locais e contou com a população da região em algumas cenas.

"Acho que a Amazônia é muito pouco conhecida e considero que o cinema é um dos melhores tentáculos que temos para divulgar uma região, um país, para abranger uma realidade", comentou o diretor, para quem o Brasil está "perdendo" a região "pouco a pouco".

Produção

Nachtergaele escreveu o roteiro de "A festa da menina morta" depois de assistir a um ritual de uma comunidade da Paraíba, no qual se veneravam os trapos do vestido de uma menina desaparecida, em uma tradição que misturava crença, oração e festa. No entanto, o diretor e ator decidiu rodar a fita em Barcelos, município a 400 quilômetros de Manaus, onde ainda sobrevive uma significativa comunidade indígena.

"Conheci Barcelos quando estava gravando um filme com (o diretor Herbert) Brödl e soube que queria rodar ali. Era um Brasil que não conhecia, me senti estrangeiro", reconhece Nachtergaele, segundo o qual o único bom filme sobre a região é "Iracema - Uma transa amazônica" (1976), de Jorge Bodanzky e Orlando Senna.

"Penso que ('A festa da menina morta') é um filme sobre questões religiosas que almeja refletir o Amazonas", conclui Nachtergaele. O ator e diretor, que foi homenageado na capital portuguesa, também protagonizará o próximo filme de Claudio Assis ("Amarelo manga", "Baixio das bestas"), que se chamará "Febre do rato" e começará a ser rodado em março de 2010.

Fonte: EFE

Foto: AgNews

"Shadows", pai de todos os filmes independentes, completa 50 anos

Rodado sob as leis da improvisação do jazz, sem argumento nem protagonistas claros e com um orçamento mínimo, "Shadows", o primeiro filme de John Cassavetes, completa 50 anos hoje, como fundador do cinema independente americano. Em 1959 ainda não havia nem o Festival Sundance nem o Independent Spirit Awards (prêmio pelo espírito independente, em tradução livre).

Na França, emergia a nouvelle vague como revolução da linguagem cinematográfica, mas nos Estados Unidos o ator e diretor Cassavetes inaugurava, com mais modéstia, mas com igual poder de ruptura, a fonte do cinema da qual beberiam cineastas como Jim Jarmusch ou Alexander Payne. "Quando comecei a fazer filmes, queria fazer cinema como Frank Capra. Mas nunca fui capaz de fazer outra coisa que não fossem estas obras loucas e árduas. No final, uma pessoa é o que é", reconhecia, irônico.

Cassavetes não pretendia fazer um manifesto ideológico, nem havia publicações que sustentassem suas ideias, muito menos pretensões de criar uma escola. Era ele mesmo: um ator e cineasta que comporia sozinho um raro setor criativo na história do cinema, com títulos como "Uma Mulher Sob Influência" ou "Glória".

"Cassavetes construiu, contra tudo e contra todos, uma obra ferozmente pessoal e totalmente distinta do que era feito no cinema americano e, inclusive, no mundial", resumem Bertrand Tavernier e Jean-Pierre Coursodon no livro "50 anos de Cinema Americano". "Shadows" foi sua estreia como diretor. O filme foi gravado com uma câmera de filme 16 milímetros nas mãos, em uma Nova York noturna e com um orçamento de apenas US$ 40 mil.

O longa fundia o cinema com uma jam session, criando um conjunto fresco e vibrante que foi premiado no Festival de Veneza com o prêmio da crítica. "Um dos traços originais e muito pessoais de 'Shadows' é sua obstinada recusa a enunciar a temática. Nunca se poderá dizer sobre o que é um filme de Cassavetes, somente que é sobre personagens. Poderemos ver relações entre brancos e negros, mas nunca se enuncia o problema racial", dizem Tarvernier e Coursodon em seu livro.

Levando em conta que nesse ano "Ben-Hur" ganhou 11 Oscars, "Shadows" foi um exemplo de ousadia. "Como artista, busco coisas diferentes. Mas, sobretudo, nós artistas temos que nos atrever a fracassar", era seu lema de trabalho. Cassavetes queria "superar o simples efeito de realidade para alcançar, por assim dizer, a própria realidade. E justamente porque se aproximou de forma absolutamente convincente a esta ambição, ao mesmo tempo simples e grandiosa, é frequentemente considerado, ainda hoje, um improvisador", afirmam os cineastas franceses em seu livro.

É por isso que "o diálogo em 'Shadows' é tão 'cassavetiano' e mostra um incongruente senso de humor tão semelhante ao que aparece em todos os seus demais filmes", segundo Tavernier e Courduson. Cinquenta anos depois de "Shadows", o cinema independente americano vive uma crise de identidade. Nos anos 90, com o auge do Festival Sundance, os filmes "indie" chegaram ao Oscar e se transformaram em negócio para os grandes estúdios, que abriram suas filiais para o público minoritário.

Os irmãos Coen, Todd Solondz, Gus Van Sant ou Tom DiCillo marcaram essa geração, que foi incorporando-se à indústria ou repetindo mensagens já não tão revolucionárias. E assim, o lema "no risk, no award" (sem risco, sem prêmio, em tradução livre) dos Independent Spirit Awards foi se tornando ultrapassado e surgiram produtos independentes com um tom comercial como "Juno". Assim, "Shadows" volta a impressionar nos dias de hoje, principalmente por sua independência.

Fonte: Mateo Sancho Cardiel/EFE

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Pais da Praça de Maio ganham voz em filme argentino



As Mães da Praça de Maio são conhecidas mundialmente pela incansável busca por justiça para os filhos desaparecidos durante a ditadura militar argentina. Mas o que aconteceu com os pais é a pergunta central de um documentário que estreia nesta segunda-feira (9) no Festival de Cinema de Mar del Plata. "Padres de la Plaza, 10 recorridos posibles" tenta encontrar respostas através do testemunho direto de dez pais de filhos desaparecidos entre 1976 e 1983 e de maridos das Mães da Praça de Maio, uma organização de direitos humanos que luta para obter a verdade e a justiça há mais de 30 anos.

"Notamos que estava ausente a voz do pai, o que nos levou a perguntar o que aconteceu com eles. Os agrupamentos eram de mães, avós, filhos, familiares, incluindo irmãos, mas os pais não se agruparam", disse à Reuters o diretor do filme, Joaquín Daglio. O documentário compete na seção Argentina da edição número 24 do Festival de Cinema de Mar del Plata, que ocorre até domingo na cidade balneária a cerca de 400 quilômetros de Buenos Aires.

Voz aos pais

O filme, simples e quase sem música, dá voz aos pais para que contem como lidaram com o desaparecimento de seus filhos e como acompanharam suas mulheres, que são a cara visível da luta. Segundo organizações de direitos humanos, durante a última ditadura militar argentina desapareceram cerca de 30 mil pessoas. Na maioria dos casos os corpos não foram encontrados, uma das principais queixas dos pais.

"São 10 indivíduos entre milhares que viveram isso. A ideia do filme é aproximar as perguntas e propor um espaço de reflexão para seguir construindo a memória", disse Daglio. Todos disseram que acompanharam suas mulheres material e moralmente. Alguns disseram que o trabalho impediu-os de se envolver mais e outros sustentam que era muito difícil realizar marchas pacíficas, como as feitas pelas mães todas as semanas, porque os homens são mais fáceis de se reprimir.

"Enquanto nossas companheiras participavam da ronda, nós nos mantínhamos nas esquinas próximas à Praça de Maio para ver se aconteceria algo a elas", diz no documentário Jaime Steimberg, um dos pais, que morreu há dois anos e pediu que lançassem suas cinzas no mar, onde acreditava estar seu filho.

Fonte: Reuters

Foto: Divulgação