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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Acerto de contas com o passado da nostalgia

Logo no primeiro Woody Allen que assisti notei que ali patinava, entre a realidade e o sonho, um cineasta perdido na nostalgia e, ao mesmo tempo, um humorista que fugia do rótulo de discípulo de Harold Loyd. O segundo Allen me deu uma certeza: o cara queria mesmo era permitir um olhar diferente sobre as coisas que não fez e, voltando a um passado talvez fictício, acertar as contas com os acidentes da vida.

"A Rosa Púrpura do Cairo" foi o primeiro e "A Era do Rádio" o segundo momento em que encontrei algumas respostas satíricas para o humor de um certo judeu novaorquino que parecia incapaz de viver longe de Manhatan e da Bigapple, mas que já batendo nos 80 anos, parece ainda perdido em seu mundo pós-contemporâneo.

Pelo menos é essa minha percepção após assistir um dos mais recentes filmes do cara: "Meia-noite em Paris". De novo a viagem ao passado, o artista incompreendido, o consumismo político-conservador, as estátuas de mármore em que se erguem os velhos chavões cinematográficos e o final feliz. É essa mesmo o sequência. Já tava tudo em "A Rosa Púrpura..." quando a personagem de Mia Farrow foge da realidade diante das telonas e lá um dia o herói salta da tela pra mudar a vida dela. Aqui Jeff Daniels bem que tentou fugir da canastrice mas, pro bem da personagem que ele intrepretava, foi melhor mesmo aliviar pra linha lateral e de bico, senão perdia a bola e ia pro banco de reservas mais cedo.

Mas voltando à "Cidade Luz", a Paris de Allen é descrita em imagens que parecem um documentário em película. Nada contra a paisagem e seus cartões postais sem metafísica (que aqui não é bastante e pensa, e muito), mas aqueles ângulos já foram explorados à exaustão e isso desde que Chabrol, Truffaut e Godard ainda escreviam pra Cahiers du Cinéma e sonhavam o que seria o Nouvelle Vague e seus retumbantes dramas cauterizados do pós-guerra europeu. (Tá, pula essa sequência e vamos logo pro que interessa).

O que conta aqui é a volta ao passado, já que o presente é dominado pela tal da globalização, o politicamente correto e o "mais do mesmo" quase sempre mais do não mesmo. Lá pelas tantas o protagonista cansa da vidinha de roteirista rico e famoso que leva em Hollywood, com a noiva fútil e sua família conservadora, e decide ir pra Paris atrás do sonho de ser um escritor cuja vida se confunda com a arte, tal qual fizeram Ernest Hemingway, Scott e Zelda Fitzgerald, Gertrude Stein e mais uma dúzia de artistas contemporâneos dessa trupe, incluindo Salvador Dalí, Pablo Picasso e Luis Buñuel.

Numa noite de tédio, o cara vai parar numa esquina parisiense, dá meia-noite, ele entra numa carruagem e faz uma espécie de volta no tempo não vivido (tá aqui Woody Allen e seu sonho jamais realizado). Ele vai bater na Paris da década de 1920 e lá encontra e convive com os nomes citados lá em cima. Até aí, é só Allen se debatendo pra realizar seu projeto mais ambicioso desde "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa".

Mas peraí, parô, parô. Até aqui só esculhambei geral, mas a parada tem suas virtudes. Aliás, tem uma virtude apenas: uma crítica mordaz à não valorização do presente. Já notou como o cara aos 50, 60 anos sempre diz que "há 40 anos tudo era melhor"? Pois o avô dele, 40 anos antes, também dizia: "há 50 anos tudo era melhor" e daqui há 60 anos vai ter neguinho dizendo: "em 2012 o mundo era outro". Quem tem razão? Talvez o talvez!

Digo isso porque o protagonista do filme convive com toda essa turma de mitos e se deslumbra por isso, mas quem viveu a década de 1920, em Paris, topava com Picassos, Dalís e Buñuels, pelas esquinas, trocava insultos e sopapos com Hemingway nos botecos esfumaçados, discutia literatura e política com Zelda e Scott Fitzgerald, nos elegantes cafés, e achava tudo muito natural. Como hoje a gente só encontra essa trupe nos livros, documentários, museus, galerias de arte e páginas na internet, os mitos se multiplicam e tem quem ainda pergunte: "esses caras existiram ou são também ficção de si mesmos?". Resposta: só Bill Gates sabe!

Ah, antes que eu me esqueça até o velho Bill vale umas palavras de respeito. Mas antes disso, lembro de outra personagem de "Meia-noite em Paris": é uma estudante de moda que se envolve com o protagonista e, só pra variar, vive na Paris dos anos 20 e acha aquilo um tédio. Numa viagem dentro da viagem, ela vai pra Paris de 1800 e dinossauro, se deslumbra com a Belle Époque e diz que quer ficar por ali mesmo, que se achou no tempo-espaço. Só que lá, ela e o protagonista encontram outros tipos também insatisfeitos com o presente e que dizem que o supra sumo da humanidade estaria na Renascença. (E agora, mermão? Insatisfação geral com o presente, o passado e o passado do passado? Que que eu faço?)

Se estamos em 2012 e tem quem ache que a década de 1920 seria a ideal, então é certeza absoluta que daqui há 100 anos vai ter gente dizendo: "puxa, como eu queria ter vivido em 1990, 1995, quando a internet tornou-se comercial e revolucionou as comunicações e relações humanas" ou "como seria bom ter sido contemporâneo de Bill Gates, o cara do Windows e da Microsoft, com Steve Jobs, o gênio da Apple, do Macintosh, de Orkut Büyükkökten e a rede social que criou e também de Mark Zuckerberg, garoto-prodígio que inventou o Facebook".

Sentiu a pressão, mermão? É isso aí: somos contemporâneos de uns caras que também mudaram e ainda ajudam a mudar, a cada dia, esse globo girante que a gente habita e não percebemos isso. Saber pelo noticiário que a fortuna de Bill Gates já se aproxima do trilhão de dólares ou que "A Rede Social" (que considero um filme estapafúrdio de tão fraco) ganhou o Oscar Hollywoodiano é tão descartável quanto deletar spams ou bloquear vírus que roubam senhas. É o que os sabichões tão poeticamente chamam de "descartabilidade". Mas, traduzindo em miúdos, até o Paulo Miklos já cantou a bola em um de seus discos: "Vou Ser Feliz e Já Volto". (Eu não queria, mas sou obrigado a dar o veredicto: SÓ PRENDENDO!)

Câmbio, desligo

Foto: Divulgação

Sérgio Augusto
Editor da Academia da Palavra

domingo, 24 de julho de 2011

A maldição dos 27 (?)

Amy Winehouse se foi e, desde que foi divulgada a notícia da morte da cantora inglesa, no último sábado (23/07/2011) os sites, blogs, jornais, revistas, emissoras de rádio e TV se apressaram em colocar "no ar" especiais, entrevistas, homenagens e demais parafernálias já previsíveis para esse tipo de ocasião. E pra variar, de uma hora pra outra, (quase) todo mundo se tornou fã incondicional e passou a "reverenciar" a grande artista que, sem dúvidas, ela foi. Grande no sentido de ser diferenciada em relação a outros "ídolos" que a cada dia a mídia cria e mata, sem se preocupar em jogar os vestígios para baixo do tapete.

Winehouse também foi um produto fabricado. Basta comparar o som que ela fazia no primeiro disco, "Frank", com o que se ouviu no segundo trabalho em estúdio, "Back to black". Dos vocais, aos ritmos, passando pelas fotos que aparecem nas capas e todo o conceito dos arranjos dá pra perceber que algum "engenheiro" passou pela vida dela, percebeu que ela tinha um pé no jazz retrô de 40, 50 anos atrás, e o outro na capacidade autodestrutiva.

Confesso que quando ouvi Amy pela primeira vez identifiquei nela laivos de Billie Holyday, em "At Last", e de Anita O´Day, em "Sweet Georgia Brown". Guardadas as devidas proporções, Amy poderia ter se tornado uma diva caso sobrevivesse aos primeiros anos da pressão dos fãs, tablóides, gravadoras e outros personagens que ajudam a destruir o artista e construir o mito em quem investem seus sonhos, frustrações e desejos. É aquela famosa curiosidade mórbida de ter prazer em ver o artista no fio da navalha, na beira do abismo, a caminho do que Robert Plant tão poeticamente canta como as "Starway to heaven".

Produto fabricado ela foi, mas ao menos foi fiel ao "Viva intensamente e morra jovem", tantas vezes cantado e levado às últimas consequências pelos astros do rock. Sendo filho do diabo, como também dizem ser o blues, o rock é uma estrada de excessos que cobra um pedágio caro, na maioria das vezes a vida de seus filhos. Foi fiel por amar a música e os palcos e se recusar a fazer o jogo dos tablóides, dos holofotes, das falsas aparências. Desse confronto entre o aqui e agora e o amanhã incerto, sobrou o ser humano sensível, frágil, viciado em álcool e drogas e incapaz de suportar as agruras e falsidades do mundo globalizado.

Amy foi original, mesmo com aquele personagem que tentaram impor sobre a grande cantora. Aquelas perucas, aquela maquiagem pesada, aqueles vestidos, pareciam ser obra de algum marqueteiro que farejou, antes de todo mundo, uma mina de ouro naquela voz firme e rasgada, nascida junto com todas as grandes do blues e do jazz. Por um tempo o cara faturou, só não esperava que a "festa" acabaria tão cedo. Tirando o personagem tosco que nela tentaram impor o que sobra? Um diamante ainda em processo de lapidação, mas já com brilho único e visceral.

Me refiro à máscara quando lembro de nomes como Lady Gaga, Beyoncé, Rihanna, Britney Spears e, no Brasil, Restart e Maria Gadú. Tirando a pirotecnia, os (d) efeitos especiais, os bilhões gastos em marketing e os golpes publicitários para se promoverem a qualquer custo na mídia, o que sobra para esses "artistas" estrangeiros? Resposta: a ilusão, o vazio e o nada.

Quanto aos nacionais, experimente botar os 4 "restarts" num palco sem aquelas roupas coloridas, aqueles óculos sem lentes e sem aquelas caretas que costumam fazer para fotos e me digam o que acontece. Alguém aí consegue lembrar de um único "sucesso" e cantarolar uma frase dos caras? Deixa pra lá, perda de tempo e raciocínio. E a Gadú? Coloquem ela sem aquele visual "muderno" num palco pra ver o que acontece. Só mesmo o Caetano, batendo nos 70, pra cantar a tal da "Shimbalaêi" (É assim que se escreve?) e dizer que é "linda".

Mas dei toda essa volta porque, quando tive a idéia de escrever essse post, milhares de "críticos musicais" pularam na frente a citaram a tal da "maldição dos 27" que é, segundo os "especialistas", a idade fatal para os verdadeiros e grandes artistas. Até agora já citaram Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Kurt Cobain e agora Amy Winehouse.

Pois aproveito pra acrescentar Brian Jones (gênio da guitarra e fundador dos Rolling Stones) e Jean-Michel Basquiat que, apesar do nome francês, era norte-americano e um dos grandes artistas plásticos dos últimos 50 anos. Basquiat não era músico, mas as telas que pintou "cantam" e, só de olhar, dá pra "ouvir" os riffs que cada um dos quadros transmite. Pois bem, a tríade sexo, drogas e rock´n´roll levou também esses dois aos 27 anos e o mito sobre os dois algarismos ganhou mais dois nomes de peso.

Se há alguma relação, ou "maldição", como queiram, entre as mortes dos ídolos e a idade em que se foram, isso já é mais um produto criado pelo fanatismo. Mas que bate aquela curiosidade em saber como a turma que passa dos 27 e chega aos 67, como é o caso de Mick Jagger (que já tem 68) e Keitih Richards, ou aos 87, como chegou Anita O`Day, ah, isso bate. Nesses três casos, a bola bateu na trave milhares de vezes e só não estufou as redes porque não quis. As da Amy, para o bem ou para o mal, já foram estufadas e bem mais cedo.

Câmbio, desligo.

Sérgio Augusto

Editor da Academia da Palavra

Foto: divulgação

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Exposição sobre Miles Davis, o "filósofo do jazz", chega ao Brasil em outubro

"Um ano depois que eu nasci, um furacão passou por St. Louis. Talvez ele tenha deixado um pouco de sua criatividade indomável em mim, um pouco da força de seu vento", escreveu Miles Dewey Davis III em sua autobiografia de1989.

O raciocínio supersticioso é o modo mais simples de descrever a força criativa de um trompetista que, durante 40 anos, passou diversas vezes como um Katrina pelo status quo do jazz, redefinindo conceitos de ritmo, harmonia, sonoridade e interação na música, além de deixar em seu rastro uma aura indecifrável, tão misteriosa quanto elegante.

Todas as fases do homem, do bebop ao fusion, formam a exposição Queremos Miles, concebida pelo instituto musical Cité de la Musique, em Paris, com data de estreia marcada para o início de agosto no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, e outubro em São Paulo. Dividida em oito partes, que seguem a trajetória do trompetista desde sua infância, no Missouri, ao estrelato, Queremos Miles busca apresentar o trompetista para os leigos e ilustrá-lo para os fãs.

"Desde os anos 50, Miles tem uma base de fãs muito grande na França", explica o curador da exposição Vincent Bessières, que teve ajuda da família do músico para montar a mostra. "Mas o Cité de la Musique é um lugar didático, aberto para todos, não somente os fãs. Então me esforcei para que a pessoa que não conhecesse sua obra pudesse, em uma ou duas horas de exposição, ser iniciada", completa.

Seis das oito partes da mostra são feitas por casulos construídos na forma de uma surdina de trompete, que contém arquivos e música de todas as fases de Miles - entre elas, a fase inicial, quando, aos 18 anos, ele chegou em Nova York e se apresentou a Charlie Parker como seu novo colaborador, tendo a oportunidade de desenvolver sua música, no palco, ao lado de Bird e Dizzie Gillespie; o início do cool jazz, sua luta contra o vício em heroína e seu quinteto com o fabuloso Red Garland, nos anos 50; o icônico disco Kind of Blue; suas colaborações orquestrais com o arranjador Gil Evans; seu quinteto com Wayne Shorter; o parto do fusion, na fase Bitches Brew e o desenvolvimento do gênero nos anos 80.

"A música de Miles mudou bastante durante sua vida. Sua obra é um pouco como a de Picasso: ele não toca no final como tocava no início. Portanto, a exposição é estruturada de um modo em que o visitante possa ter a experiência audiovisual de todos esses períodos no local", conta Bessières.

A exposição tem o foco tanto na música quanto na memorabilia de Miles. Estarão presentes sete de seus trompetes, diversos documentos de sessões em gravadoras, e instrumentos como o sax que John Coltrane tocou em Kind of Blue, o baixo em que Marcus Miller gravou Tutu, as baterias de Tony Williams e Al Foster. Um acervo de fotos com todos os belíssimos registros da gravação de Kind of Blue também faz parte da exposição. Para agradar os fãs assíduos, Bessières conseguiu partituras, diversos arranjos de Gil Evans, o flugelhorn em que Miles tocou Sketches of Spain.

A fase inicial traz pinturas de Jean Michel Basquiat, de quem Miles foi amigo nos anos 80. As obras retratam o fascínio do pintor americano pelo época em que a rua 52 de Manhattan fervia com os solos de Charlie Parker, Dizzie Gillespie e Thelonious Monk, entre outros. A mostra também traz quadros de Miles, que se aventurou pela pintura no período, entre os anos 70 e 80, em que ficou sem tocar e gravar, assim com algumas das próprias capas ilustradas pelo músico. Mas, de acordo com Bessières, a exposição também vasculha outras facetas do músico.

Um dos filmes que deve ser um deleite para os aficionados mostra Miles fazendo um treinamento de boxe. Embora não lutasse por causa de seus lábios (um corte na boca pode significar aposentadoria para um trompetista), ele treinava sozinho. Um de seus discos dos anos 70, A Tribute to Jack Johnson, é uma trilha sonora para o filme sobre o grande boxeador negro.

A moda de Miles estará presente com algumas de suas jaquetas mais memoráveis. O filme Ascensor para o Cadafalso, de Louis Malle, cuja trilha foi feita por Miles enquanto viveu em Paris será mostrado, e uma seção com as mulheres de Miles retrata as beldades negras que figuraram em suas capas.


Fonte: Roberto Nascimento/Estadão

Foto: Divulgação

terça-feira, 12 de julho de 2011

The Beatles juntos nas Olimpíadas de 2012?

O músico Paul McCartney deu a entender que ele e Ringo Starr podem montar uma versão reformada dos Beatles para uma apresentação na abertura das Olimpíadas, em 2012, que acontecerão em Londres.

"Eu ouvi rumores de que eu posso estar envolvido. Acredito que eles estejam planejando esse tipo de música", disse, quando questionado se a abertura dos jogos teria algo a ver com os Beatles.

"[McCartney] estava escondendo detalhes. Ele tem conversado com os organizadores e disse que adoraria estar envolvido de alguma maneira. Eles também querem Ringo no palco para tornar o evento muito especial", disse uma fonte ao tabloide britânico "The Sun". O tabloide vai ainda mais longe dizendo que os beatles mortos, George Harrison e John Lennon, poderiam ser representados por seus filhos.


Fonte: Folha Online


Foto: Divulgação

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Recorde histórico: exame da OAB reprova 9 em cada 10 bacharéis

O resultado final do último exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), realizado em dezembro de 2010, é o pior da história da entidade: apenas 9,74% dos bacharéis em Direito foram aprovados em um total de 116 mil inscritos, segundo dados do Conselho Federal da OAB obtidos pelo JT. Nesse universo também estão incluídos os treineiros, estudantes do último ano da graduação (9º e 10º períodos), que tiveram um desempenho muito superior ao dos diplomados.

Até então, o pior índice do País era de 14% de aprovados, entre os 95,7 mil inscritos no primeiro exame realizado pela OAB no ano passado, de acordo com o jurista e cientista criminal Luiz Flávio Gomes, fundador da rede de ensino LFG. O exame foi unificado em 2010, o que ajuda a explicar, de acordo com Gomes, o aumento no índice de reprovação: a porcentagem de aprovados, na média entre os três concursos anuais, passou de 28,8%, em 2008, para 13,25% em 2010. Antes disso, cada Estado do País aplicava sua própria seleção, o que possibilitava, segundo a OAB, que um candidato se submetesse a provas mais fáceis em algumas regiões do País.
 
Especialistas acreditam que o mau desempenho dos estudantes também está associado à má qualidade da educação básica, à má formação no ensino superior, à falta de dedicação dos estudantes e à abertura indiscriminada de faculdades de Direito. “Não há um culpado só, todos colaboram. Há deficiências nas faculdades, em geral, mas o aluno não se preocupa muito com o curso”, analisa Gomes. “E o exame está mais difícil”, complementa.
 
Para Marcelo Tadeu Cometti, coordenador de pós-graduação no Complexo Damásio de Jesus, o problema da reprovação começa na educação básica. “Os estudantes não têm formação suficiente para entender o que está sendo oferecido no ensino superior e a culpa é do Estado”, diz. “Se você pegar o corpo docente das melhores universidades de São Paulo, por exemplo, e colocá-lo para lecionar nessas faculdades de baixo índice de aprovação, os resultados não serão melhores”, aponta. Para ele, o aluno que “não tem boa formação no ensino fundamental e médio, não tem bons hábitos de leitura e não conseguirá passar no exame”.
 
Diretor-presidente da Escola Paulista de Direito, Ricardo Castilho lembra que, no Brasil, são constantes as mudanças na legislação e nos códigos. “É muito difícil manter-se atualizado”, aponta. “Com a carga horária disponível hoje, de 3.780 horas, é impossível o aluno aprender tudo o que precisa para passar na Ordem”. A existência do exame, porém, é defendida pelos profissionais. “O advogado lida com a liberdade e os bens patrimoniais dos cidadãos. Espera-se que saiba ao menos redigir uma petição ou dar início a um processo”, afirma o coordenador-geral do Conselho Federal da OAB, Marcus Vinícius Furtado Coelho. 

“É isso que a prova avalia”, aponta. Vice-presidente da Comissão Nacional do Exame de Ordem, Edson Cosac Bortolai diz que a prova “impede que um advogado despreparado ofereça seus serviços à sociedade. “Seria um prejuízo social muito grande.”

Fonte: Isis Brum/JT

Foto: Divulgação

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Noel Rosa maior que Heitor Villa Lobos?

No traço elegante de Carlinhos Müller, Noel Rosa dialoga, no idioma do samba, com outro gênio da MPB, Lamartine Babo
Embora um tanto timidamente, o centenário de Noel Rosa (1910-1937) vem sendo lembrado em shows, CDs, seminários e livros --como "Noel Rosa - O Poeta do Samba e da Cidade" (Casa da Palavra), de André Diniz. Mas uma das homenagens mais interessantes ficou para 2011.Trata-se de um livro organizado por Júlio Diniz, coordenador do programa de pós-graduação em letras da PUC-Rio, com artigos de diversos pesquisadores sobre o impacto de Noel na formação da música popular brasileira.

Segundo Diniz, a ideia é mostrar que a influência do compositor teve reflexo em toda a produção musical subsequente, incluindo a bossa nova e as canções de Chico Buarque, Tom Jobim e Vinicius de Moraes. "Ele influenciou a música brasileira mais do que Villa-Lobos", diz. De acordo com o pesquisador, Noel é o protagonista de um movimento modernista carioca que divergiu do modernismo paulista, celebrado na Semana de Arte de 1922, e que, ao menos no âmbito musical, foi o que herança maior deixou ao país.

Diniz afirma que, enquanto os paulistas tinham um projeto para a música brasileira, que passava pelo resgate do cancioneiro popular e folclórico --e pela elevação deste através do conhecimento erudito--, os cariocas não tinham projeto, mas promoveram uma mistura muito mais horizontal do samba com a cultura burguesa.

MISTURA

"Noel foi o primeiro compositor branco e letrado a subir o morro para fazer músicas com parceiros negros. Mesmo sem estar a serviço de uma ideologia, ele inaugurou uma mistura que marcou a música brasileira daí em diante", diz. Carlos Didier, biógrafo de Noel ao lado de João Máximo, diz que ele teve 18 parceiros negros e mestiços, incluindo Ismael Silva, Cartola e Canuto.

Morto de tuberculose aos 26 anos, compôs 252 canções em oito anos de carreira e conseguiu transportar para as letras um amplo leque de temas que escapavam do tema único da malandragem. "Ele abordou assuntos como o telefone e o cinema falado, e sua produção é tão atual como a de Machado de Assis", afirma Diniz.

O pesquisador e compositor paulista Luiz Tatit concorda com a preponderância de Noel Rosa na construção da música popular brasileira. Segundo ele, Noel inaugurou a confiança no samba como uma linguagem autônoma, divergente da linha folclórica e da erudita, o que serviu de fundamento para a MPB. "Ele tinha orgulho de ser sambista, diferentemente de Ary Barroso, que, embora tenha feito sambas maravilhosos, tinha uma espécie de nostalgia de uma produção mais elevada", diz.


Fonte: Marcelo Bortoloti/ Folha de S.Paulo

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Canções de Chico Buarque inspiram microssérie na Globo

O casamento de Ary está nas últimas. Uma briga com a mulher desencadeia a peregrinação pelos bares de São Paulo. Ele corre a avenida Paulista, desce a rua Augusta, alcança o viaduto do Chá, passa pelo edifício Copan. Nessa busca por sabe-se lá o quê, ele conhece Vera. A companhia é agradável. O sexo, inesquecível. Paixão instantânea. No dia seguinte, vem a conta: Vera é prostituta, ele não sabia. E cobra de Ary a noitada --ironicamente, a mais romântica que ele teve nessa sua triste vida.

Assim, resumido, o argumento de "Folhetim", um dos quatro episódios da microssérie "Amor em Quatro Atos", que estreia na TV Globo em janeiro, parece até ter sido inspirado por algum conto de "A Vida como Ela É", de Nelson Rodrigues. Mas não. Foi a letra da canção homônima de Chico Buarque (aquela dos versos: "Se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim") que conduziu o roteiro do episódio, trouxe seus personagens e, no fim, que vai render sua trilha sonora.

O mesmo vai acontecer com os versos de "Vitrines", "Mil Perdões", "Construção" e "Ela Faz Cinema", canções de Chico em que os roteiristas Antonia Pellegrino, Marcio Alemão Delgado, Estela Renner e Tadeu Jungle foram buscar as outras histórias. O projeto foi criado por Rodrigo Teixeira, que comprou os direitos de dez canções de Chico para este e outros fins.

PACOTE CHICO

Já está publicado, pela Cia. das Letras, o livro "Essa História Está Diferente", em que dez escritores criaram contos sobre as músicas do compositor. Baseado em "Olhos nos Olhos", Karim Aïnouz está produzindo o longa "Eclipse da Violeta" para o cinema. "Amor em Quatro Atos" completa o pacote na TV. Coprodutora do projeto, a Globo disponibilizou alguns de seus atores para a série.

Entre eles estão Carolina Ferraz, Malvino Salvador, Vladimir Brichta, Alinne Moraes, Marjorie Estiano, Dalton Vigh e Camila Morgado. A supervisão geral ficou sob os cuidados de Roberto Talma. A direção foi dividida entre Talma ("Mil Perdões"), Tadeu Jungle (capítulo que une "Construção" e "Ela Faz Cinema") e Bruno Barreto.

Barreto é o único que assina dois episódios. O cineasta está tratando "Folhetim" e "Vitrines" como duas metades de uma única história. Um longa de 80 minutos. Depois que se apaixonar pela prostituta em "Folhetim", Ary passa todo o episódio "Vitrines" obcecado por ela. Segue seus passos às escondidas, como diz a canção, "catando a poesia que [ela] entorna no chão".

"Outro dia, brinquei com o Chico [Buarque]", conta. "Nos anos 70, ele fez uma música ['O que Será'] para o meu filme 'Dona Flor e Seus Dois Maridos'. Agora, faço um filme para músicas dele. Enfim, estamos quites". Se o formato pegar, podemos esperar canções de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Jobim virando histórias em futuras noites da Globo.

Fonte: Marcus Preto/Folha de S.Paulo

Foto: Divulgação

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

CD joga luz sobre inéditas de Johnny Alf


Em seus últimos 15 anos, o cantor, compositor e pianista Johnny Alf (1929 -2010) viveu de dinheiro obtido em shows intimistas, feitos sobretudo em pequenos clubes de jazz e no circuito paulista do Sesc. Para público quase sempre restrito, Johnny fazia o diabo. Recriava as próprias canções, desconstruía repertório alheio, mostrava material inédito, promovia jam sessions com convidados, de Cauby Peixoto a Ed Motta.

Ao menos 20 dessas apresentações foram gravadas em áudio, então sem maiores pretensões, pelo empresário do artista, Nelson Valencia. O material está em fase de tratamento e, ainda neste ano, chega ao público dentro de uma caixa, a ser lançada pela gravadora Lua Music. Sob os cuidados do produtor Thiago Marques Luiz (que dirigiu álbuns recentes de Wanderléa e do próprio Cauby), o projeto inclui mais dois discos. Um é dedicado aos sucessos de Johnny. Outro, às canções obscuras.

Estão recrutados para o álbum de hits --se é que a palavra "hit" cabe a compositor tão sofisticado-- artistas que compartilham do mesmo universo artístico. "Não tem nenhum gaiato no disco", diz Thiago. "Só convidamos gente que gostava dele, e de quem sabíamos que ele também gostava." Estão na lista Joyce (cantando "Fim de Semana em Eldorado"), Toquinho ("Rapaz de Bem"), Leny Andrade ("O que É Amar"), Claudette Soares ("Gesto Final"), Emílio Santiago ("Nós"), Zé Renato ("Céu e Mar") e Wanderléa ("Ilusão à Toa"). O álbum com os temas desconhecidos de Johnny é projeto pessoal de Alaíde Costa --a intérprete predileta do compositor, segundo o próprio chegou a declarar.

Já totalmente gravado, o disco dela inclui canções como "Escuta", "Como Dois Corações e meu Sonho" e "Tema da Cidade Longe". Também está programado para este ano o lançamento de uma biografia de Johnny Alf dentro da Série Aplauso, da Imprensa Oficial. O livro foi escrito pelo jornalista e pesquisador João Carlos Rodrigues e se apoia em entrevistas com músicos, produtores e amigos do artista desde a adolescência, além de um depoimento de uma hora e meia colhido do próprio Johnny.

Para Rodrigues, o mais importante a ressaltar é que, apesar do final um tanto solitário, o artista não se encaixa no hall dos "injustiçados". "Tudo o que ele fez foi porque quis. Até 60 e poucos anos, ele bebia muito, era agressivo, faltava aos compromissos. Foi quase um Tim Maia da bossa nova", compara Rodrigues. "Quando parou de beber, se tornou uma pessoa muito fechada".

Fonte: Marcus Preto/Folha Online

Foto: Divulgação

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

21 anos sem Raulzito

Os biógrafos costumam dizer que Raul Seixas levou o rock às últimas consequências. Nos últimos anos de sua vida, mesmo sofrendo de pancreatite, ele não se afastou do consumo exagerado de drogas e álcool. A doença levou à morte o Maluco Beleza aos 44 anos, no dia 21 de agosto de 1989. Para eles, a decadência perante o público, os problemas com empresários e gravadoras são menores diante da sua relevância artística. Passados 21 anos, seus principais hits são conhecidos do grande público.

O interesse pela obra de Raulzito reacende em novas gerações de fãs, que fazem questão de soltar a voz com o grito “Toca Raul”. Ainda hoje é possível ouvir o jargão em bares, pistas de dança e shows de rock.
Um dos legados do roqueiro é parecido com o fenômeno que acontece com o "Rei do Rock" Elvis Presley: inúmeros sósias fazem questão de se vestir de forma idêntica a Raul e atuar fazendo covers do cantor. A sua confirmação, como mito do rock nacional, é frequente em homenagens no teatro, na TV, nas biografias e relançamentos de álbuns.

A admiração pelo “Maluco Beleza” ultrapassa o rock. Chitãzinho e Xororó, Maria Bethânia, Milionário e Zé Rico e Elba Ramalho já regravaram composições do baiano.

Documentário é aguardado para 2010

O longa-metragem dirigido por Walter Carvalho e Evaldo Mocarzel promete estrear nas telas ainda em 2010, trazendo depoimentos de parentes, amigos e antigos parceiros, como o escritor e letrista Paulo Coelho, que trabalhou com Raul na composição de músicas que fizeram parte da fase mais conhecida da carreira do roqueiro.

Em 2009, um trecho do filme foi exibido durante o Festival do Rio. O teaser mostrava o cantor se dizendo apaixonado por cinema. "Espero acabar em Hollywood”, brincava, irônico, afirmando ser um ator que fingia ser cantor.

Sua interpretação é lembrada graças a videoclipes para o Fantástico, nos quais Raul extravasava sua criação. As perfomances são destacadas pelos cenários em chroma key e pela produção, como as dançarinas presentes em "Sociedade Alternativa" - um dos primeiros clipes musicais feito a cores no Brasil, exibido em 1974.

Fonte: Maria Chrisá/ G1

Foto: Divulgação

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Documentário revela o lado ativista do criador da "Playboy"

Hugh Hefner, o vovô de roupão vermelho acompanhado de loiras saradas, tem um passado rebelde. E não é só pelo fato de ter criado a revista "Playboy" e lutado contra o puritanismo americano. Hefner, 84, foi um paladino pela liberdade de expressão e pelos direitos civis dos negros, numa jornada que começou nos anos 50.

É esse lado ativista, e não o lado polígamo que guarda Viagra no banheiro, que interessa à canadense Brigitte Berman, ganhadora do Oscar por um filme sobre o músico Artie Shaw em 1985. Berman acaba de estrear nos EUA "Hugh Hefner: Playboy, Ativista e Rebelde", um documentário de mais de três horas, ainda sem distribuição no Brasil, sobre um dos editores mais influentes do século 20 e sua coleção de atos heroicos.

Como, por exemplo, quando usou o "Big Bunny", seu jatinho particular, para "distribuir" bebês órfãos do Vietnã pelos EUA. E adivinha quem ele escalou para cuidar dos infantes na jornada? Mas o time de coelhinhas não ganha muito destaque no filme. Nem suas ex-mulheres ou seus filhos, possíveis herdeiros. Aliás, não se fala nada sobre o futuro da revista. Recentemente, Hefner fez uma oferta para comprar a parte da empresa que já não mais lhe pertence.

IMPÉRIO

Hoje, a "Playboy" é um império internacional, com diversos produtos licenciados e programa de TV. É o que mantém a revista, cujas vendas foram do ápice de 7 milhões de unidades vendidas por mês nos anos 70 para uma circulação de 2 milhões. "Eu não acho que exista alguém que tenha apenas um lado, uma faceta. Queria mostrar um Hugh Hefner que você não vê nas festas", disse à Folha a diretora, que costuma frequentar as sessões de cinema na mansão do magnata em Los Angeles.

Ela fez mais de 12 horas de entrevistas com Hefner, além de vasculhar imagens raras dos programas de TV que ele conduziu no final dos anos 50 reunindo músicos negros e convidados brancos, mistura explosiva para a época. "Sabe, ele não sai nas ruas de roupão. Mas esse é o lado playboy que ofusca o resto."

A revista, fundada em 1953, quase saiu com o nome de "Stag Party", algo como a festa do solteiro ou do veado. "Bem na última hora decidimos mudar o veado pelo coelho. E, se não tivéssemos, dificilmente estaríamos aqui hoje", conta Hefner no filme.

Fonte: Fernanda Ezabella/Folha Online

Foto: Divulgação

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Biografia "descasca" mitos sobre Jim Morrison

Jim Morrison não era nada. Artisticamente, não passava de um jovem jeitoso em quem uma guitarra poderia ficar bem. E só. Mas era tudo de que a banda Rick and the Ravens precisava para animar uma festinha de formatura na Marina de Los Angeles naqueles anos 60. Só havia dois problemas: 1.) Jim Morrison não sabia tocar guitarra. 2.) Jim Morrison não sabia cantar.

Ali baixinho, ao pé do ouvido, Ray Manzarek, amigo de universidade e tecladista, deu as coordenadas: "Jim, faz o seguinte: coloca a guitarra no volume zero." O show acabou, Jim recebeu seus 20 dólares de cachê e agradeceu. "Ray, este foi o dinheiro mais fácil que já ganhei."

A história andou e Jim Morrison, mesmo ícone à frente dos Doors, se tornaria tudo, menos um bom vocalista. The Doors por the Doors, trabalho rico colhido em entrevistas e pesquisas pelo jornalista americano Ben Fong-Torres, ex-repórter da Rolling Stone e último homem a entrevistar Morrison, mexe no vespeiro. Sua qualidade maior é não se ajoelhar diante do túmulo para tratar o roqueiro como um deus.

As fontes são pessoas que estiveram no olho do tornado, como o pai, George Morrison, além de irmãos, amigos, produtores e os integrantes da banda que chegou a ser chamada de ‘Beatles americanos’.

Fong-Torres assume muitas vezes uma escrita em primeira pessoa, o que lhe garante diferenciais sobre outras biografias feitas por quem não esteve ao lado do cantor. Mas se estava tudo em suas mãos, por que não fez o livro antes? Torres diz que muitos nós tiveram de ser desatados entre os músicos, que não chegavam a consensos sobre direitos comerciais. "Mesmo com isso e os direitos cedidos para um novo documentário, When You're Strange, eu me adiantei aos cineastas", diz, em referência ao filme de Tom DiCillo, sem data para chegar aqui.

O que manteve os Doors na estrada? Eis a pergunta que Torres se fez ao constatar o nível de desleixo com que Morrison levava sua carreira. Coube ao tecladista Ray Manzarek, ao guitarrista Robbie Krieger e ao baterista John Densmore respirar fundo e contar até três. Muitas vezes. "Morrison sempre agiu de forma pouco profissional e descontrolada. Colocou em risco a carreira da banda." Ele passa aqui por um episódio de 1967, quando o vocalista foi preso em Miami, após um show onde mostrou seus órgãos genitais no palco. "Depois disso foram cancelados inúmeros concertos e várias estações de rádio pararam de tocar suas músicas. Mas eles estavam com ele." Por pouco, cita Torres, o baterista Densmore não largou tudo. "Ele ficou muito cansado e tentou sair uma ou duas vezes, mas sempre voltou. Não importava a forma como Jim vivia. O que importava era a lealdade, a perseverança, a tolerância. Foi incrível para mim perceber isso."

O autor diz que praticamente todas as biografias de Morrison relatam que ele foi para a universidade sem o conhecimento e a aprovação dos pais. Na apuração de Torres, a família discorda desta versão. O pai, George Morrison, diz ter ficado satisfeito com a decisão do filho de estudar cinema. "Fiquei maravilhado. Achava que seus talentos se adequavam àquela linha de trabalho."

A estratégia para fazer voar alto o primeiro compacto, Break On Throught (To The Other Side), funcionou até certo ponto. Do próprio estúdio onde gravaram o disco, os músicos dispararam a ligar para as emissoras de rádio pedindo a música como se fossem simples fãs. Até que a garota que atendia ao telefone percebeu a fraude. "Ok, parem de ligar. Nós sabemos que vocês ou fazem parte da banda ou estão recebendo para fazer isto."

As fragilidades vocais de Morrison não são camufladas no livro. John Densmore, o baterista, conheceu o amigo na garagem de Ray Manzarek durante os primeiros ensaios da banda. Com cuidado, ele esbarra na sensação que teve ao ver Jim cantar pela primeira vez. "Ele nunca tinha cantado antes, estava apenas começando. Sua voz não era encorpada, mas ele tinha total confiança em si mesmo, algo do tipo ‘vou me tornar vocalista.’ Nada de cantar a partir do diafragma ou de técnicas especiais, apenas cantava, gritava ou o que quer que fosse aquilo que estava fazendo", comenta no livro.

O próprio Morrison tinha consciência de suas limitações. Ao falar com Manzarek na praia de Venice sobre a ideia de formar os Doors, abriu-lhe o coração. "Não sei… Sou meio tímido e a minha voz não é lá tão boa." Ao que Manzarek devolve: "Sua voz não é tão boa? Bob Dylan é famoso internacionalmente com aquele guincho que é a voz dele." Morrison então enfiou as mãos na areia e começou a cantar Moonlight Drive. "Assim nasceram os Doors: as letras de Jim somadas à minha música climática", diz Manzarek.

Aos brasileiros, um belo tira-gosto. A influência da bossa nova nos Doors é um fato, maior do que a própria música pode transparecer. Em entrevista ao Estado (leia abaixo), Ray fala de como sons joãogilbertianos passaram a ser perseguidos pela banda.

The Doors por The Doors - Autor: Ben Fong-Torres. Editora: Ediouro. 432 págs. Preço: R$ 59,90



Filme traz cenas inéditas da banda, por Flávia Guerra

Se as portas da percepção entrassem em colapso, tudo pareceria como é: infinito. Este detalhe do poema de William Blake, que inspirou o nome de uma das bandas mais controversas da história, também inspira o diretor Tom DiCillo em When You’re Strange, primeiro documentário feito sobre a banda que nasceu em 1965 nos câmpus da Ucla (Universidade de Los Angeles), onde Jim Morrison e o tecladista Ray Manzarek estudavam cinema.

Quem pensa que tudo já foi dito, e filmado, sobre o Doors em The Doors, de Oliver Stone, não perde por esperar. When You’re Strange, ainda sem data para estrear no Brasil, não faz revelações bombásticas, mas tem o mérito de trazer imagens inéditas.

Fonte: Fernando Moura/ Estadão
Foto: Araldo Di Crollalanza/Rex Features

Nota: Discordo exatamente da parte em que a matéria diz que Jim Morrison não sabia cantar. Tocar guitarra ou qualquer outro instrumento, Jim realmente não sabia, mas cantar sabia sim. Basta ouvir as gravações ao vivo de "Unknown soldier", "The end", "Riders on the storm", "When the music is over" ou "Back door man". Se isso é não saber cantar o que dizer do Fiuck, filho do cantor Fábio Jr. e produto de um enlatado televisivo? Fica o questionamento.

Sérgio Augusto

Editor da Academia da Palavra

sábado, 20 de março de 2010

20 anos sem Zacarias

Aos 20 pensamos que seremos jovens e indestrutíveis para sempre. Aos 30, já não dá mais para passar o dia na rua, a pé, sem uma quase estafa na hora de dormir. E quando olhamos pra trás? Já percebeu que ficamos com a impressão de que tudo passou rápido demais?

Mais uma vez tive essa sensação dia desses, quando assistia TV e, lá uma hora, aparece aquela carinha risonha do Zacarias, personagem do ator Mauro Gonçalves e que faz parte da mitologia dos anos 80. Quase caio da cadeira quando o locutor disse que já se foram 20 anos desde que o Zaca partiu. Pode? O pior é que pode.

Eu tinha 14 pra 15 anos quando assisti no Fantástico a comoção que foi aquele domingo, quando o humorista faleceu. Já tô batendo nos 3 ponto cinco e ainda é estranho dizer que ele morreu, quando ele parece tão presente.

Me respondam qual era o menino ou menina dos anos 80 que não largava tudo o que estava fazendo e corria para a frente da TV, por volta de 19h, quando tocava a musiquinha de abertura dos Trapalhões? Lá na minha rua a molecada parava a bola sagrada das tardes (que entrava pelas noites) de domingo, subia os andares do prédio de escada mesmo e não voltava mais. Era um magia, um humor inocente, lúdico, como não mais se fez.

Não venham me chamar de saudosista, que isso é quem só gosta de passado e não valoriza o presente. Mas que dá uma vontade enorme de voltar a ser criança, quando se assiste aquela caixa de DVD dos Trapalhões, ah, isso não tem como evitar.

Mas o melhor disso tudo é saber que nossa infância foi feliz e que, cada vez que revemos os "Trapas", volta toda aquele sentimento, aqueles sonhos, aquela vontade e conquistar que só a criança tem. Esses pequenos momentos são a felicidade e relembrá-los faz muito bem ao coração.

Valeu Zaca

Abraços a todos

Sérgio Augusto


Editor da Academia da Palavra

terça-feira, 16 de março de 2010

Pesquisadores descobrem peça "perdida" de Sheakespeare

Uma peça que foi descoberta pela primeira vez há 300 anos agora foi considerada de autoria de William Shakespeare, entre seus autores. A obra, cujo título é "Double Falsehood" (traição dupla, em tradução livre), foi escrita por Shakespeare em parceria com outro dramaturgo, John Fletcher. O empresário teatral britânico do século 18, Lewis Theobald, apresentou a peça como uma adaptação de outra obra de Shakespeare, mas ela foi considerada uma falsificação.

Agora, os acadêmicos da editora britânica da obra do bardo, a Arden, acreditam que Shakespeare escreveu grande parte da obra. Os pesquisadores acreditam que a peça é baseada em um trabalho perdido há muito tempo chamado "Cardenio", que já era baseado na obra "Don Quixote", de Cervantes. "Acho que o toque de Shakespeare pode ser notado no Primeiro Ato, Segundo Ato e, provavelmente, nas duas primeiras cenas do Terceiro Ato da peça", disse à BBC o professor Brean Hammond, da Universidade de Nottingham.

Hammond acredita que "Double Falsehood" tenha sido escrita pouco depois da publicação da tradução de "Don Quixote", em 1612. A peça foi apresentada pelo menos duas vezes em 1613. Hammond é o editor da última coleção de obras de Shakespeare para a Arden, que já inclui a obra. "Pelo menos metade das peças [de Shakespeare] escritas no período foram escritas em colaboração", disse Hammond.

Já é aceito que Shakespeare escreveu outras duas peças com Fletcher no final de sua carreira, "Henrique 8º" e "Dois Nobres Parentes".

Fonte: BBC

quinta-feira, 11 de março de 2010

Livro de Marcelo Tas supera as 23 mil cópias vendidas em quatro meses

Lançado há pouco mais de quatro meses, "Nunca Antes na História Deste País" (Panda Books) acaba de ultrapassar a marca de 23 mil exemplares vendidos. Isso significa que aproximadamente 191 unidades do livro do jornalista e apresentador Marcelo Tas --que chegou às livrarias em 4 de novembro de 2009-- "sumiram" das prateleiras a cada dia.

Misturando humor e ironia, o autor ressalta o dom "filosófico" do presidente Lula ao reunir uma série de frases engraçadas e "revoltantes" do político. Em entrevista à Livraria da Folha, do dia do lançamento do livro, Tas disse que "após receber a faixa presidencial, Lula virou um expert em qualquer tipo de assunto, principalmente naqueles onde não tem o menor domínio" e que ele "sabe muito bem transformar uma derrota vergonhosa numa vitória retumbante".

Marcelo Tas diz que Lula é "gênio do ilusionismo" e publica livro com frases do presidente. Marcelo Tas reúne em livro frases polêmicas e engraçadas de Lula; leia trecho. Já o comediante, publicitário e cartunista Danilo Gentili, que lançou "Como Se Tornar o Pior Aluno" cerca de um mês após o de "seu apresentador" Tas, no "CQC", vendeu 10 mil cópias do livro.

Com o objetivo de compartilhar com o público as experiências politicamente incorretas acumuladas durante sua vida escolar --foram 12 suspensões, 78 assinaturas no "livro negro" e uma expulsão--, Gentili oferece 23 lições para se transformar em um baderneiro de mão-cheia.

Fonte: Livraria Folha

sábado, 16 de janeiro de 2010

Livrarias têm perdas de 4% por ano devido a furtos

Os dedos passeiam pelas prateleiras, de livro em livro. Os olhos esquadrinham o ambiente ao redor à espera do instante para a consumação do delito. Apesar do arsenal de câmeras e alarmes, o furto de livros é corriqueiro nas livrarias do país. A Associação Nacional de Livrarias (ANL) estima que os furtos representem um prejuízo de até 4% para o setor, em um mercado que movimentou R$ 1,9 bilhão de reais só em 2009. "A coisa é tão séria que as livrarias hoje usam sistemas sofisticados de vigilância", avalia Vitor Tavares da Silva Filho, presidente da ANL.

A partir de dados oficiais da Fnac e da livraria Loyola, além de enquete com outras seis livrarias do eixo Rio-São Paulo, a Folha chegou a uma estimativa dos principais alvos dos ladrões de livros. No último semestre, o livro mais roubado no país foi o best-seller juvenil "Lua Nova", de Stephenie Meyer. Outros títulos, no entanto, confundem o traçado do perfil do criminoso literário.

"A História da Feiura", de Eco, e "Além do Bem e do Mal", de Nietzsche, títulos preferenciais, apontam uma direção intelectual. Já o surgimento de "Leis Penais Comentadas" na enquete não deixa dúvidas: há quem procure conhecer a legislação penal brasileira praticando, de cara, um crime. A ausência de um perfil definido torna difícil apontar suspeitos. Na livraria, todos são clientes, até que soe o alarme.

Fonte: Fernanda Mena/Folha de S.Paulo

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Inaugurado museu em homenagem às vítimas da ditadura de Pinochet no Chile

O Chile inaugurou na segunda-feira o Museu da Memória em homenagem aos que foram torturados, assassinados ou desaparecidos durante a ditadura de Augusto Pinochet. "A mensagem deste memorial é mostrar que todos perdemos algo. O que se passou, a divisão do país da ditadura, afetou a todos", disse à imprensa a diretora executiva do projeto Museu da Memória, Marcia Scantlebury.

A inauguração aconteceu dois meses antes do fim da presidência de Michelle Bachelet e a seis dias do segundo turno da eleição presidencial que definirá seu sucessor, entre o direitista Sebastián Piñera e o governista de centro-esquerda Eduardo Frei. A presidente e seus pais são parte das cerca de 30.000 vítimas diretas deixadas pela ditadura, entre mortos, desaparecidos e torturados.

"Não podemos mudar nosso passado, só nos resta aprender com o que vivemos. Esta é nossa oportunidade e nosso desafio", disse a presidente ao lançar a pedra fundamental do edifício em dezembro de 2008. Registros audiovisuais, gravações de programas radiofônicos, desenhos e objetos guardados pelos prisioneiros das prisões e dos campos de concentração da ditadura ao longo do Chile, estarão expostos num recinto de 9.000 m2 - inclusive numa esplanada - numa zona central de Santiago.

O ato de inauguração foi marcado por protestos de ativistas pró indígenas, que interromperam o discurso da chefe de Estado. Duas mulheres pediram liberdade aos mapuches - que representam 6% da população chilena de 16 milhões de habitantes - que reivindicam terras no sul do país, que chamaram de 'presos políticos'.

Antes do incidente, Bachelet destacou a abertura do lugar. "A inauguração deste museu é um sinal poderoso do vigor de um país unido. União que se funda no compromisso compartilhado de nunca mais voltar a sofrer uma tragédia como a que neste lugar sempre recordaremos", afirmou em referência à ditadura (1973-1990). "Esta tragédia somou desde o primeiro dia a negação e a ocultação da dor do cativeiro ou da morte (...) tragédia que assolou um país em crise profundamente dividido e confrontado, que não foi capaz de superar suas diferenças dentro da democracia", disse Bachelet.

Fonte: AFP

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Vinte anos sem Aurélio Buarque de Holanda

O lexicógrafo, crítico literário, filólogo e professor alagoano Aurélio Buarque de Holanda (1910-1989) morreu há 20 anos, porém seu legado para a língua portuguesa permanece até hoje. Aos 14 anos, ele começou a se interessar pela língua e a dar aulas de português. Ingressou no magistério um ano depois. Em 1936, com 26 anos, formou-se em Direito, na Faculdade do Recife. Nesse ano, tornou-se professor de Língua Portuguesa e Francesa, e de Literatura no Colégio Estadual de Alagoas.

Em 1938, Buarque de Holanda mudou-se para o Rio de Janeiro e continuou lecionando português. No ano de 1941, o professor foi convidado para realizar um trabalho lexicográfico, como colaborador do "Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa". 

Preocupado com a língua portuguesa, assumiu o compromisso de elaborar seu próprio dicionário. Em 1975, o "Novo Dicionário da Língua Portuguesa", conhecido como dicionário "Aurélio", foi publicado. Com o lançamento, o lexicógrafo tornou-se representante internacional dos assuntos literários e linguísticos da língua portuguesa.

Buarque de Holanda publicaria o "Minidicionário da Língua Portuguesa", também chamado de "Miniaurélio", em 1977. O "Dicionário Aurélio Infantil da Língua Portuguesa", com ilustrações do Ziraldo, viria 12 anos depois. Eleito como imortal pela Academia Brasileira de Letras, em 4 de maio de 1961, Buarque de Holanda ocupou a cadeira número 30.

Fonte: Folha de S.Paulo