Mostrando postagens com marcador MUNDO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador MUNDO. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Migração: Cuba e EUA iniciam conversações

Autoridades de Cuba e dos Estados Unidos iniciaram na sexta-feira uma nova rodada de conversações sobre assuntos de migração, buscando manter aberto um canal de comunicação após os recentes tropeços diplomáticos que afetaram as tentativas de os dois inimigos melhorarem seus laços. A reunião começou pela manhã em um lugar não revelado de Havana, disse uma fonte diplomática norte-americana.

Essa é a segunda reunião desde que as negociações sobre migração foram retomadas em julho de 2009, após um parêntese de seis anos, o que foi interpretado então como um sinal de aproximação do governo do presidente Barack Obama. Os contatos em Havana, no entanto, ocorrem em um clima pouco otimista e sob a sombra da detenção, em dezembro passado em Cuba, de um contratista norte-americano acusado de distribuir equipamentos de satélites ilegais a dissidentes.

"As discussões ocorrerão na melhor forma a promover uma emigração segura, legal e ordenada entre Cuba e os Estados Unidos", disse o Departamento de Estado em um comunicado. A delegação norte-americana é chefiada pelo subsecretário do Escritório de Assuntos Hemisféricos do Departamento de Estado, Craig Kelly, que poderá abordar a situação do contratista durante as conversações.

Cuba sugeriu que o contratista trabalhava para os serviços de inteligência dos EUA. Washington nega. O presidente cubano, Raúl Castro, disse que a detenção dele demonstra que Obama busca acabar com o sistema socialista de Cuba, assim como seus antecessores. Cuba e EUA têm previsto emitir comunicados ao final das negociações sobre migração na tarde de sexta-feira.

Ambos os governos declararam-se satisfeitos após a primeira rodada realizada em julho passado em Nova York. A imigração é um tema delicado em Cuba, que acusa os EUA de fomentar a emigração ilegal para tentar desestabilizar o sistema socialista do país. Os dois países firmaram um acordo migratório em 1995 para frear o êxodo de balseiros cubanos em meio à severa crise econômica após o fim da União Soviética.

Cuba comprometeu-se a deter as saídas ilegais e os EUA a devolver os emigrantes interceptados em alto mar e entregar 20 mil vistos anuais a cubanos.

Fonte: Esteban Israel/Reuters

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Civilidade comprometida por luta pela sobrevivência

As imagens de saques em meio às ruínas de Porto Príncipe rodaram o mundo e se destacaram em meio ao choro e à desolação dos haitianos em ruas, praças e tendas improvisadas. No cenário de destruição, a insegurança em relação à própria sobrevivência passa a ditar as ações das vítimas do terremoto que recentemente devastou o Haiti.

Para os haitianos, a incerteza quanto ao futuro diz respeito não ao próximo ano ou década, mas à próxima hora. Onde não há quase nada, a civilidade desaparece. "Vemos o desespero ali. Existe uma perda de controle por parte das pessoas", diz Leila Tardivo, livre-docente do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo). "Muito da própria civilidade se perde. Há um desespero mais que animalesco na briga por comida."

Para a psicóloga, o mundo está diante de um vórtice de estresse incomensurável. "É quase uma horda primitiva, e digo sem qualquer preconceito. É a perda da civilidade, da evolução como homem, provocada por uma situação extremada que não podemos julgar --não nos é dado esse direito. Qualquer um de nós poderia fazer aquilo".

Diferentemente do que as imagens divulgadas na TV e na internet podem sugerir, o ato de saquear comida pode ser a face de um contexto emocional que não tem relação com o egoísmo, ressalta Eliana Torga, coordenadora da comissão de emergências e desastres do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais. "As pessoas que saquearam podem ter tido um ato altruísta, no sentido de dar aquele alimento para o filho ou para a mãe. É uma situação muito além dos limites dele", considera. "Aquela realidade mexe tão profundamente com questões básicas do ser humano que eles perdem os controles sociais que todos temos, de moralidade."

Angela Coelho, colaboradora do Conselho Federal de Psicologia, esteve no Peru em 2007 para prestar auxílio às vítimas do terremoto em Pisco. Para ela, sentimentos e ações de toda espécie são esperadas após um desastre. "Não ter nenhuma reação seria estranho", diz a psicóloga, que estuda o tema há quase 20 anos.

Hoje, o Haiti é um terreno mais que favorável ao estresse pós-traumático, numa equação cujos fatores são muito mais antigos que os tremores de magnitude 7,0. "O desenvolvimento do quadro de estresse está ligado a comprometimentos anteriores ao evento. As pessoas já eram vítimas de problemas antes do desastre", diz Ângela. Se antes do terremoto os sentimentos de insegurança e desordem estavam sempre presentes, agora eles são gritantes.

Apoio e vitimização

A extensão dos problemas psicológicos dos haitianos terá relação direta com a demora no atendimento das necessidades básicas de sobrevivência, lembra Eliana. "Quanto mais rápido for restabelecida a normalidade da vida, menor o comprometimento", diz a psicóloga, referindo-se tanto a questões emocionais como físicas. "O fato de ter fé ajuda muito a manter a esperança. Mas o que vai confortá-los é o atendimento das necessidades básicas. É preciso um abrigo, de lona que seja. Um psicólogo pouco ou nada poderá fazer se não houver o que comer".

No trabalho da ajuda humanitária para prover comida, abrigo e um mínimo de sanidade, é importante não subestimar as capacidades das vítimas e buscar contemplar a cultura e a experiência locais, afirma Márcio Gagliato, psicólogo que atuou em regiões de conflito como Timor Leste, Ruanda e Sudão. "É preciso ver essas pessoas como sobreviventes ativos. Eles são os proprietários da sua localidade, têm uma cultura. É necessário colocá-los nesse processo", diz o especialista. "É algo fundamental para pensar no processo de reconstrução."

Assim, a comunidade mostra-se mais importante do que um psicólogo, e as equipes de auxílio devem estar atentas a isso. "Coisas simples como facilitar a comunicação entre eles para que se encontrem são muito importantes", diz Gagliato.

Fonte: Mary Persia/Folha Online