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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Patrulheiros sem retórica




Debatendo cá com meus humildes botões, chego à conclusão que as "patrulhas do politicamente correto" (com minúsculas mesmo) que tanto polemizam pra lá e pra cá, em cima de tudo e todos, nos dias de hoje, chiariam horrores com os humoristas de verdade. Vamo raciocinar: aqueles quadros e personagens clássicos do Chico Anysio, Jô Soares e Os Trapalhões, especialmente na década de 1980, seriam agora mais que criticados, processados e, quem sabe, teria até passeata nas ruas pra que fossem tirados do ar. 

Vejamos: o Haroldo, o Hetero, levaria processo por homofobia, a mesma coisa o Painho, que também seria acionado judicialmente por homofobia e danos morais, já que, supostamente, satiriza o jeito de ser - digamos assim - meio "lento" do baiano (olha lá o cuidado que tô tomando com as expressões). 

O Tim Tones seria logo apontado como ofensa aos pastores evangélicos; o Justo Veríssimo viraria alvo de muitos políticos, que certamente iriam se identificar com o personagem e não aceitariam ser, também supostamente, ridicularizados. E o que dizer, então, do Nazareno, que vivia chamando a esposa de "extração de dente sem anestesia" pra baixo, e do Setembrino, o "Último Comunista"?

O Jô Soares também aprontava das suas. Se hoje em dia ele gravasse quadros do Capitão Gay levaria milhares de processo por homofobia e também iria se indispor com alguns militares, pois a patente do personagem é a de capitão. E Os Trapalhões então? O Didi vivia chamando o Mussum (cujo nome artístico também já seria considerado pejorativo) de "grande pássaro" e "reco-reco", sendo que o "Muça" respondia com "paraíba" e "trofeuzinho de corrida de jegue".

Eram programas que faziam rir, refletir e questionavam muitas coisas erradas da sociedade brasileira. E hoje tenho certeza que seriam alvo dos "politicamente corretos", para quem o direito de avaliar e criticar, de todos, deixou de ser real e se tornou um palco para, nem sempre, produtivos debates. 

Câmbio, desligo

Sérgio Augusto
Editor da www.academiadapalavra.blogspot.com

Ilustração: G1

domingo, 10 de março de 2013

Fechem as cortinas. O palhaço da boina vermelha se foi

Hugo Chavez e o famoso gesto do punho cerrado (Divulgação)
Nada mais engraçado, para não dizer primitivo, do que um caudilho como Hugo Chavez ser cultuado, mitificado, endeusado, após levar um país, já historicamente atrasado, como a Venezuela, ao lençol freático do atraso, ignorância e miséria. Uma comoção enorme para um câncer que ajudou a corroer o já apodrecido tecido de uma nação subdesenvolvida, em nome de um discurso falso, ilusório e "pela liberdade".

Que liberdade? Essa onde só o canal estatal de televisão é permitido? Antigamente o nome disso era ditadura. Mas quem é o Brasil pra falar em ditadura? Chavez chegou ao poder após uma porção de tentativas de golpes de estado. Era, é certo, um valente tenente-coronel do Exército daquele país. Tomou o poder na base do tiro e depois me veio com um discurso de "socialismo" (com minúscula mesmo, pois proibir a imprensa livre é tudo, menos o que se entende por Socialismo).

Angariou mais meia dúzia de aliados, como o argentino Diego Maradona, outro sujeito meio confuso das ideias, que fala em "socialismo" e diz detestar os Estados Unidos, mesmo tendo mansões cinematográficas em Miami e Buenos Aires. Chavez dominou a Venezuela não com mãos de ferro, mas com a voz de um animal ferido, perdido entre os delírios de ser a reencarnação de Simão Bolívar ou o messias terceiromundista moderno. Tudo perda de tempo. 

Ponham nesse molho mais alguns meses e ele se tornará um ícone capitalista. Duvidam? Ernesto Che Guevara morreu acreditando que Cuba seria a nação do futuro. Hoje o compatriota de Maradona é um superstar do capitalismo; está em todas as estampas, comerciais, desfiles de moda e tudo o que o dinheiro é (in)capaz de comprar. Fazer o que? De tempos em tempos a mídia tem que matar, ainda em vida, uma celebridade para ter o que dizer. (E, pasmem, diz mesmo, desde que entretenha o distinto público por 15 minutos. E olhe lá).

Mas sabe o que eu mais gostava no quase-humorista Hugo Chavez? Quando ele bancava o revoltoso e falava mal dos Estados Unidos. Em certa conferência da ONU, ele soltou a pérola: "Esta cadeira onde estou agora deveria ser desinfetada. Ontem, esteve aqui sentado o demônio e o cheiro é de enxofre". O tal capeta era o então presidente norte-americano Georde W. Bush. O caudilho sul-americano esculhambou o caudilho "yankee" em público, enquanto nos bastidores certamente morreram de rir daquela palhaçada sem palhaços profissionais.

O cara falava tão mal dos "Iuessei" e, no entanto, a Venezuela, até hoje, tem nos americanos grandes clientes e parceiros comerciais. E quando ele envergava aquela boina vermelha e levantava o punho, como um sessentista "Pantera Negra" do "demônio-parceiro"? Ali estava a melhor das traduções para o que os intelectualóides de ontem e, claro, de hoje, classificam por "líder de massas".Um pequeno tirano a soldo de dólares hollywoodianos (a meca do cinema mundial, onde tudo não passa de um sonolento take de cinema).
E o Brasil? Por que o Brasil não tem peito para criticar a Venezuela? Simples: aqui a ditadura tá disfarçada de tudo quanto é nome. No Brasil, chegou-se a um ponto em que um humorista de 30ª categoria como Hugo Chavez iria passar fome. E sabem por que? É proibidor criticar.

O comediante e ator Bruno Mazzeo, aquele sujeito boa praça e até certo ponto engraçado, filho do grande Chico Anysio, tinha um programa irreverente no canal Multishow, o "Cilada". Ali ele mostrava, com fina ironia, situações do cotidiano que se passa nas grandes cidades do Brasil. Poir o cara teve que suspender o programa ou diminuir as observações ferinas que fazia, pois tava levando processos de tudo quanto é lado.

Dá pra acreditar que se ele fizesse um "Cilada" dramatizando o que acontece num voo na ponte aérea Rio-São Paulo, por exemplo, no dia seguinte o sindicato das aeromoças, dos aeroportuários e até dos mecânicos já o estava processando por, supostamente, "ofender os profissionais"?

No Brasil, hoje se vive um "politicamente correto" irritante. Tudo é motivo para processos, reclamações e protestos. Por que processam um humorista enquanto a corrupção tá aí correndo solta entre boa parte de políticos, industriais e em todas as esferas de poder?

Vive-se um momento em que não se pode fazer a menor observação, senão logo aparecem os beócios do anti-racismo, anti-homofobia, anti-terceiro mundo, anti-religião, anti-preconceito e anti-tudo-menos-corrupção. (Boa essa: anti-corrupção não existe. Corrupção é tão normal e familiar que nem é considerada crime. No Brasil, é o que mais faz o povo rir).

E o que fazer agora, que mais um caudilho-piadista se foi? Vamos chorar as lágrimas de um crocodilo abandonado? Nunca. Sejamos fortes. Vamos esperar, que a qualquer momento um novo "mito" aparece. Foi assim com Fidel Castro (já morto em vida), Alberto Fujimori, Getúlio Vargas, Adolf Hitler, Id A Mim Dada, Osama Bin Laden, Saddam Hussein, Muammar Gaddafi e todos os outros ditadores que animam esse circo dos horrores chamado Planeta Terra.  

Câmbio, desligo!

Sérgio Augusto

Editor da www.academiadapalavra.blogspot.com

domingo, 4 de novembro de 2012

Essa brincadeira um dia já se chamou "Marketing Político"


Passado o período eleitoral, prefeitos e vereadores eleitos, prontos pra assumirem seu cargos, chegam ao fim as ilusões e as campanhas de marketing amadoras. Agora sim, é possível analisar o teatro de péssimos atores em que está inserida a estratégida de campanha política no Brasil. Falo em Brasil porque, do Norte alo Sul, é tudo a mesma coisa. Tudo quanto é candidato é perfeito, teve infância difícil e, por saber o que é pobreza, vai mudar a miséria em que se vive e se morre. Pra começar, todos, sem exceção, me vieram com uma conversa furada de "crise mundial que afeta a economia brasileira". Que crise, mermão?

No Brasil a gente nasce, cresce e morre na crise e o que o resto do mundo assiste, agora, é menos que 10% do que a gente sente no Brasil desde sempre. Falam que a Europa tá quebrada. Mas quebrada em que sentido? Pelo fato do cara não poder ser consumista ao extremo? É isso a crise? Pois coloca uma cidade como Antuérpia ou Estocolmo no padrão Brasil de bagunça, com trânsito caótico, violência descontrolada, saúde e educação falidas, corrupção institucionalizada e legitimizada por lei e farsa de julgamento de "mensalão", que num lugar como a Dinamarca já teria dado em presídio até pro presidente da República. (mas deixa pra lá; o Brasil nasceu como ponto de desembarque de ladrões, estupradores, assassinos e o resto da escória que vinha da Europa. Que futuro um lugar desse pode ter? Vamos logo ao que interessa)

Assisti meia dúzia de programas eleitorais e ainda não acredito que torraram milhões de reais naquilo. Uma porcaria maior que a outra, em tudo quanto é estado. E pra quê? Pra eleger os mesmos candidatos que há séculos (ou seriam dinastias?), tão aí rapinando os cofres públicos. Não teve uma mísera campanha política com algo inovador. Ainda hoje, 52 anos após o pleito que elegeu John Kennedy presidente do Estados Unidos, o marketing político no Brasil ainda não chegou perto do que o velho Joe Kennedy, patriarca do clã, concebeu na arena do poder. E, diga-se, a estratégia dele já era por demais simplória.

John Kennedy nem sequer pensava em ser político. Só entrou em combate porque o irmão mais velho - Joseph Kennedy Jr. - morreu quando seu avião foi abatido na Segunda Guerra Mundial. Sequer sabia discursar e não sabia o que significava "composição política". Queria mesmo era ser professor de História e Direito em Harvard (EUA) e continuar levando sua vida de "bon vivant", no que era acompanhado pro Frank Sinatra, Sammy Davis Jr., Dean Martin, Peter Lawford e outros do famoso "Hat Pack" (ele deu provas de que esse papel ele teria desempenhado bem melhor)...

Pois lá pelas tantas, Joe pagou diretores de cinema para ensinarem John a se portar diante dos holofotes e olhar direto para as câmeras, como se estivesse falando individualmente para cada telespectador. Kennedy era jovem, bem apessoado, e, bem doutrinado, dizendo exatamente aquilo que os norte-americanos queriam ouvir, quando queriam ouvir, bateu Richard Nixon, que, barbado, suando muito e sem familiaridade com o circo dos debates de TV, ficou com a fama de ser o velho e batido "establishment". (Ambos eram essa palavra aí, mas Kennedy era a marionete bem embalada comandada pelo pai).

Quer mais? Pois anos antes, na campanha de Jack (John) para senador, Joe pagou um porteiro, com nome homônimo ao do adversário do filho nas urnas, para que ele se candidatasse e confundisse o eleitorado. Muitos acabaram votando no porteiro e o adversário de Jack apanhou feio. Sujeira do velho Kennedy? Eu diria falta de ética. Mas comparando com o que muitos candidatos a prefeito e vereador fizeram recentemente, parece brincadeira de secundaristas na hora do recreio.

E o golpe de mestre? Joe Kennedy já tinha péssima fama e preferiu, durante a campanha do filho, ficar na sombra. Anos antes, diante dos protestos de muitos "cidadãos respeitáveis", um personagem influente que o escolheu para um cargo de grande importância, na área econômica nos EUA, lascou: "Nada melhor que um ladrão para pegar ladrões". Pois assim que Jack acordou eleito presidente norte-americano, Joe declarou: "Agora posso aparecer ao seu lado nas fotos oficiais". Realização de um sonho. Desde muito cedo, Joe queria ser o presidente dos EUA, mas seu passado de pouca ética inviabilizou o desejo.

Não esqueçamos: faz mais de meio século que Joe Kennedy arquitetou uma campanha política banal até para aquele tempo. Aí bate aquela dúvida: se o marketing político no Brasil está décadas atrás do que o patriarca Kennedy fez há mais de meio século, onde então os marqueteiros tupiniquins se inpiram para bolar essas milionárias peças "geniais", que mostram os atores figurantes que são nossos políticos? (Resposta: SÓ PRENDENDO!)

Câmbio, desligo!     
Sérgio Augusto - Editor da www.academiadapalavra.blogspot.com

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O quase rei e o herdeiro da coroa jamais destronada




Heleno de Freitas nasceu e morreu para o futebol e a vida enquanto Pelé nascia e se perpetuava para o mundo. Até aí nada demais, não fossem as tantas coincidências que se encarregam de emparelhar o trágico ao glorioso, a loucura à perspicácia, o fechar das cortinas à lenda viva. Tudo isso pude comprovar dia desses após assistir “Heleno, o príncipe maldito”, e dar o apito final na leitura da biografia com que tentaram homenagear o lendário atacante do Botafogo de Futebol e Regatas. Batendo datas, jogos memoráveis e também lances irrelevantes, cheguei à conclusão que Heleno e Pelé são os dois lados de uma mesma bola, por muitos conhecida como “a vida é um jogo sem replay, nem prorrogação”.

Heleno despontou nos profissionais do Botafogo carioca em 1940, ano em que Edson Arantes do Nascimento nasceu. Aprontou umas e outras, bateu nos adversários (e até nos próprios companheiros), pilotou os carros mais luxuosos da época, conquistou as mulheres mais belas e, apesar de tudo isso, foi campeão uma única vez: carioca, em 1949, mas vestindo a camisa do Vasco da Gama. Nasce o primeiro mito: o melhor jogador do Brasil e das Américas foi quatro vezes vice-campeão pelo time que tanto amava e a quem dedicava o sangue, e venceu um torneio pela equipe que gostava de judiar.

Inaugurado o Maracanã em 1950, Copa do Mundo no Brasil, nada mais natural que Heleno, estrela do Sulamericano em Santiago, no Chile, cinco anos antes, comandasse o temido ataque brasileiro, formado ainda por Ademir de Menezes, Zizinho e Jair Rosa Pinto, certo? “Nunca”. Uma única, solitária, rasteira e definitiva palavra, do treinador da Seleção, Flávio Costa, para quem havia o jogador apontado um revólver meses antes da convocação definitiva, tirou o atacante do Mundial. Morre o segundo mito: Costa havia dito que sem Heleno o Brasil levava o caneco.

E não é que o Brasil conseguiu perdeu de virada, dentro do "Maraca" lotado, para um Uruguai que só tinha uma jogada: lançamento de Obdulio Varela, entrada de Giggia como uma flecha pela ponta-direita, chutaço no canto esquerdo do arqueiro brasileiro Barbosa? Uruguai campeão, nem o próprio capitão Obdulio acreditava. Só se deu conta da parada no dia seguinte, quando se reconheceu na capa de um jornal carioca, após uma noitada impublicável num cassino de má fama. Não tem jeito; boemia rima com bola em qualquer época...



Mas o show, ou a vida, ou, ainda, o princípio da morte, forneceu mais uns capítulos para o centroavante Heleno: desabou física e mentalmente, foi internado num sanatório já com sífilis avançada, morreu esquecido, pobre, pior que um farrapo. Quando faleceu, Heleno sequer sabia que o Brasil havia sido campeão do mundo, na Suécia, em 1958. E pelos pés daquele que herdaria a coroa que o botafoguense, por pouco, não ostentou na cabeça: Pelé.

Também mineiro, o pequeno Edson não teve berço de ouro nem estudou nas melhores escolas. Se conheceu Heleno, foi pelas transmissões dos jogos via rádio. Soube desde cedo que vida de boleiro é curta nos gramados. Tratou de aproveitar todas as chances, se consagrou, parou e jogar e continua uma grande estrela; arrasta multidões e admiradores por onde passa e sua palavra tem influência dentro e fora de campo, quase quatro décadas após pendurar as chuteiras.

Fora o fato de que defenderam grandes clubes brasileiros e de que ambos vestiram uniformes alvinegros (Pelé jogou 90% de sua carreira com a camisa do Santos Futebol Clube), até no registro da trajetória dos craques há as faces da derrota e da glória. Mesmo sendo o jogador mais fotografado de sua época, Heleno não aparece em mais que centenas de fotos e só agora, mais de 50 anos após sua morte, um livro e um filme contam suas desventuras.

O livro é por demais insosso, ofusca lances primordiais de grandes partidas e parece ter sido escrito por um professor de física quântica que jamais parou para assistir um 11 contra 11. Tenho a impressão é que o camarada até hoje está na dúvida se a bola de futebol é redonda, quadrada ou, quem sabe, oca. Em certas passagens, vislumbro não a imagem de um boleiro, mas a sombra de um trágico cantor de tangos com meiões, chuteiras....e um copo de uísque.

Faltam alguns anos luz pro "biógrafo" chegar aos pés de um Ruy Castro que, mesmo hiperbólico, metafórico e passional, cometeu o grande "Estrela Solitária", um retrato comovente de outro mito botafoguense: Mané Garrincha. A escrita é morna, não tem paixão e livro sobre jogador de futebol, escrito por quem não gosta do "bola-no-pé", não é livro que se dê o respeito.

Quanto ao filme, bem que tentei nele enxergar algum link com a arte futebolística. Mas ali só encontrei o personagem do ator Rodrigo Santoro "calibrado" de éter e metido em noitadas ao invés de um craque de futebol, justamente o que deu fama a Heleno de Freitas. São poucas as cenas em que ele aparece com aquela postura de boleiro que come grama e enfia o queixo no bico da chuteira. Filmaram tudo em preto e branco e com partidas realizadas à noite, debaixo de chuva artificial, e em câmera lenta, para tentar tornar o retrato em algo poético. Fracassaram.

Cláudio Adão, um dos grandes centroavantes brasileiros de todos os tempos, treinou o ator para as cenas de futebol e diz que, quando começaram os trabalhos, Santoro estava tão perna-de-pau que parecia dar "canelada em tijolo". Tá certo, tem o lado promíscuo e anti-heróico do personagem, mas se a intenção era mostrar a glória e decadência de um jogador de futebol, o que não se vê no filme é justamente o "molho": futebol. Credibilidade, então, para se interpretar um goleador, é coisa de outro mundo. Gol contra! 

Por outro lado, Pelé é personagem de milhões de reportagens, documentários, teses de mestrado e doutorado e o filme de sua vida ainda está acontecendo, ao vivo e a cores, diariamente, nas telas da globalização. O cara caminha pros 72 anos de idade, e faz parte do comitê organizador da Copa de 2014. Qual a receita desse sucesso inacabável? “Juízo”, diriam alguns; “sorte”, alegariam outros.

Apesar de todas as ressalvas, no placar eletrônico da mitologia do futebol, contudo, ainda acredito, sinceramente, que não há perdedores quando se fala em Heleno e Pelé. Um quase foi rei, o outro é discípulo de um quase rei jamais destronado...

Sérgio Augusto
Editor da  www.academiadapalavra.blogspot.com 
Fotos Divulgação 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Acerto de contas com o passado da nostalgia

Logo no primeiro Woody Allen que assisti notei que ali patinava, entre a realidade e o sonho, um cineasta perdido na nostalgia e, ao mesmo tempo, um humorista que fugia do rótulo de discípulo de Harold Loyd. O segundo Allen me deu uma certeza: o cara queria mesmo era permitir um olhar diferente sobre as coisas que não fez e, voltando a um passado talvez fictício, acertar as contas com os acidentes da vida.

"A Rosa Púrpura do Cairo" foi o primeiro e "A Era do Rádio" o segundo momento em que encontrei algumas respostas satíricas para o humor de um certo judeu novaorquino que parecia incapaz de viver longe de Manhatan e da Bigapple, mas que já batendo nos 80 anos, parece ainda perdido em seu mundo pós-contemporâneo.

Pelo menos é essa minha percepção após assistir um dos mais recentes filmes do cara: "Meia-noite em Paris". De novo a viagem ao passado, o artista incompreendido, o consumismo político-conservador, as estátuas de mármore em que se erguem os velhos chavões cinematográficos e o final feliz. É essa mesmo o sequência. Já tava tudo em "A Rosa Púrpura..." quando a personagem de Mia Farrow foge da realidade diante das telonas e lá um dia o herói salta da tela pra mudar a vida dela. Aqui Jeff Daniels bem que tentou fugir da canastrice mas, pro bem da personagem que ele intrepretava, foi melhor mesmo aliviar pra linha lateral e de bico, senão perdia a bola e ia pro banco de reservas mais cedo.

Mas voltando à "Cidade Luz", a Paris de Allen é descrita em imagens que parecem um documentário em película. Nada contra a paisagem e seus cartões postais sem metafísica (que aqui não é bastante e pensa, e muito), mas aqueles ângulos já foram explorados à exaustão e isso desde que Chabrol, Truffaut e Godard ainda escreviam pra Cahiers du Cinéma e sonhavam o que seria o Nouvelle Vague e seus retumbantes dramas cauterizados do pós-guerra europeu. (Tá, pula essa sequência e vamos logo pro que interessa).

O que conta aqui é a volta ao passado, já que o presente é dominado pela tal da globalização, o politicamente correto e o "mais do mesmo" quase sempre mais do não mesmo. Lá pelas tantas o protagonista cansa da vidinha de roteirista rico e famoso que leva em Hollywood, com a noiva fútil e sua família conservadora, e decide ir pra Paris atrás do sonho de ser um escritor cuja vida se confunda com a arte, tal qual fizeram Ernest Hemingway, Scott e Zelda Fitzgerald, Gertrude Stein e mais uma dúzia de artistas contemporâneos dessa trupe, incluindo Salvador Dalí, Pablo Picasso e Luis Buñuel.

Numa noite de tédio, o cara vai parar numa esquina parisiense, dá meia-noite, ele entra numa carruagem e faz uma espécie de volta no tempo não vivido (tá aqui Woody Allen e seu sonho jamais realizado). Ele vai bater na Paris da década de 1920 e lá encontra e convive com os nomes citados lá em cima. Até aí, é só Allen se debatendo pra realizar seu projeto mais ambicioso desde "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa".

Mas peraí, parô, parô. Até aqui só esculhambei geral, mas a parada tem suas virtudes. Aliás, tem uma virtude apenas: uma crítica mordaz à não valorização do presente. Já notou como o cara aos 50, 60 anos sempre diz que "há 40 anos tudo era melhor"? Pois o avô dele, 40 anos antes, também dizia: "há 50 anos tudo era melhor" e daqui há 60 anos vai ter neguinho dizendo: "em 2012 o mundo era outro". Quem tem razão? Talvez o talvez!

Digo isso porque o protagonista do filme convive com toda essa turma de mitos e se deslumbra por isso, mas quem viveu a década de 1920, em Paris, topava com Picassos, Dalís e Buñuels, pelas esquinas, trocava insultos e sopapos com Hemingway nos botecos esfumaçados, discutia literatura e política com Zelda e Scott Fitzgerald, nos elegantes cafés, e achava tudo muito natural. Como hoje a gente só encontra essa trupe nos livros, documentários, museus, galerias de arte e páginas na internet, os mitos se multiplicam e tem quem ainda pergunte: "esses caras existiram ou são também ficção de si mesmos?". Resposta: só Bill Gates sabe!

Ah, antes que eu me esqueça até o velho Bill vale umas palavras de respeito. Mas antes disso, lembro de outra personagem de "Meia-noite em Paris": é uma estudante de moda que se envolve com o protagonista e, só pra variar, vive na Paris dos anos 20 e acha aquilo um tédio. Numa viagem dentro da viagem, ela vai pra Paris de 1800 e dinossauro, se deslumbra com a Belle Époque e diz que quer ficar por ali mesmo, que se achou no tempo-espaço. Só que lá, ela e o protagonista encontram outros tipos também insatisfeitos com o presente e que dizem que o supra sumo da humanidade estaria na Renascença. (E agora, mermão? Insatisfação geral com o presente, o passado e o passado do passado? Que que eu faço?)

Se estamos em 2012 e tem quem ache que a década de 1920 seria a ideal, então é certeza absoluta que daqui há 100 anos vai ter gente dizendo: "puxa, como eu queria ter vivido em 1990, 1995, quando a internet tornou-se comercial e revolucionou as comunicações e relações humanas" ou "como seria bom ter sido contemporâneo de Bill Gates, o cara do Windows e da Microsoft, com Steve Jobs, o gênio da Apple, do Macintosh, de Orkut Büyükkökten e a rede social que criou e também de Mark Zuckerberg, garoto-prodígio que inventou o Facebook".

Sentiu a pressão, mermão? É isso aí: somos contemporâneos de uns caras que também mudaram e ainda ajudam a mudar, a cada dia, esse globo girante que a gente habita e não percebemos isso. Saber pelo noticiário que a fortuna de Bill Gates já se aproxima do trilhão de dólares ou que "A Rede Social" (que considero um filme estapafúrdio de tão fraco) ganhou o Oscar Hollywoodiano é tão descartável quanto deletar spams ou bloquear vírus que roubam senhas. É o que os sabichões tão poeticamente chamam de "descartabilidade". Mas, traduzindo em miúdos, até o Paulo Miklos já cantou a bola em um de seus discos: "Vou Ser Feliz e Já Volto". (Eu não queria, mas sou obrigado a dar o veredicto: SÓ PRENDENDO!)

Câmbio, desligo

Foto: Divulgação

Sérgio Augusto
Editor da Academia da Palavra

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Pelé teria sido o que sempre será


Entre o "teria sido" e o "para sempre haverá" vai uma boa distância. Digo isso depois que assisti (pela trilionésima vez) um festival de gols da seleção na Copa de 70, no México. Especialmente os gols que o Pelé não fez me chamaram a atenção. Cara, imagina o que teria sido do futebol se aquele "drible da vaca" que ele deu no Mazukiewicz, goleiro do Uruguai, tivesse acabado no fundo das redes? E a bomba lá do meio de campo, que fez o goleiro Viktor, da então Tchecoslováquia, voltar pra baliza feito uma barata tonta, torcendo como doido pra bola mudar de rumo? A mandinga (???) do agnóstico Viktor, infelizmente, deu certo.

E aquela cabeçada contra a Inglaterra, que fez o Gordon Banks voltar, não se sabe de que planeta, pra defender de fora pra dentro, e evitar o gol do Rei? Teriam sido, sem dúvidas, golaços históricos, mas justamente por não terem sido é que ficou o mito e os sonhos que metade do mundo já construiu sobre eles.

Mas deixemos de lado os entretantos e vamos correr nos finalmentes (Odorico Paraguaçú, segura tua onda aê, rapá!). O Pelé é um superstar, adorado por muitos, criticado por outros, mas jamais ignorado por todos. Dentro de campo foi, e ainda é o maior. Parou de jogar e virou um "jetsetter" e uma lenda viva, bem articulado e, de vez em quando polêmico. Mas o que seria da vida não fosse a polêmica pra bagunçar o coreto?

Falando em bagunçar geral, lembro de outro lance daquela Copa de 70, também contra o Uruguai. É quando o zagueiro pisa no Pelé, dentro da área, e o juiz finge que não vê. Na jogada seguinte, bola na linha lateral, quase na linha de fundo, e lá vem o cavalo uruguaio de novo, pra quebrar o 10. O Rei dá uma olhadela, tem a certeza que o juiz tá longe, arma o braço direito e, num golpe de mestre, arrebenta o maxilar do uruguaio com uma cotovelada linda, poética, arrasa-quarteirão. Sofisticado como ele só, ainda se embola com a vítima e rolam os dois pelo gramado. Pelé expulso? Claro que não. A besta do juiz ainda dá falta contra o Uruguai. KKKKK

E se o Pelé tivesse se intimidado? O uruguaio ia quebrar a perna dele e adeus futebol. Já pensaram? O Rei parar de jogar no auge da majestade por causa de um beque medíocre e violento? O mesmo se aplica às especulações e mitos que muito se cria em cima do "quase", do "poderia ser" e mesmo do "talvez". Há quem diga que o ser humano faz os mitos e deles se alimenta. Ô raça esquisita....

E que tal deixar de lado os entretantos do "haveria de ser" e chutar logo na direção do "tá valendo"? Nada melhor que matar a parada de uma vez e ainda ficar com o troco do "já foi", valeu? Nisso o próprio Pelé foi mestre. Naquele mesmo jogo contra Tchecoslováquia, ele desequilibou a partida com uma das maiores criações da metafísica universal. Não só da metafísica, eu diria até que da aerodinâmica.

Gerson pega a bola na intermediária do adversário, enxerga o Pelé dentro da área e faz o passe redondo, milimétrico. Como no futebol, assim como na vida, não há perfeição, o lançamento tem endereço certo, mas o 10 não tá sozinho; tá cercado de zagueiros tchecos e tem que deles se livrar o quanto antes.

A bola vem decaindo e o cara toma três decisões imprevisíveis, numa fração de segundos. Primeiro: o mais indicado seria cabecear; a bola vem pronta pro arremate e é só testar e correr pro abraço. Pois ele salta e mata a bola no peito. Nessa decisão tomada, o sistema defensivo tcheco desaba. Se fosse mesmo cabecear, como mandam as leis da física, daria tempo do adversário chegar junto e abafar a jogada pra escanteio.

Segundo passo: matada a bola no peito, é hora de dar um "chega pra lá" nos adversários que restaram na parada. De novo, a surpresa: assim que pousar no chão, os zagueiros tchecos vão correr em cima como que acordados de um letárgico "rigor mortis", que durou poucos segundos. Então Pelé deixa a bola quicar no chão.

Não perde o raciocínio, fera: quicou no chão a bola, observa como o último dos adversários, ainda na "cola" do mestre, se dá por vencido e deixa pra lá. Saca só como ele para e age, resignado, como quem diz: "seja o que Deus quiser". Mas a jogada ainda não foi liquidada. Falta o ending com chave de ouro e diamantes.

Falta o goleiro Viktor, que tá bem posicionado embaixo das traves. O Pelé com toda a certeza vai mandar a bomba de canhota. Eis que vem a terceira e última das supresas nesse golpe de mestre: o cara troca de perna e manda de direita, colocado, na veia, no ângulo, e metade do mundo deixa o queixo cair, para, e em seguida aplaude a obra de arte.

Uma jogada com todos os ingredientes do gênio, do craque, do "teria sido", que, em segundos, se torna o "está sendo" e "para sempre será". Mais que qualquer palavra ou frase de efeito, fico com esse lance do Pelé. Está aí a síntese e o acaso, o que parecia impossível e o resultado prático, o "nunca" transformado em "sempre" e que "para sempre" ficou.

Câmbio, desligo

Sérgio Augusto

Editor da Academia da Palavra

sexta-feira, 29 de julho de 2011

"Zezinho" e a capacidade de rir de si mesmo


Jô Soares pode ser considerado tudo (egocêntrico, exibido, chato) pelos críticos de plantão, entretanto uma coisa não se pode ignorar: o artista é um dos poucos humoristas que nasceu com uma virtude rara entre os seres humanos: a capacidade de rir de si mesmos, a mesma usada por gênios como Charlie Chaplin, Buster Keaton, Cantinflas, Federico Fellini, Orson Welles e Woody Allen, só pra citar alguns dos grandes dos últimos 100 anos, para dizerem o óbvio, quase sempre ululante: o homem é geneticamente alegre, até que se prove o contrário e o riso liberta. Essa é sensação que tenho cada vez que assisto as reprises, promovidas pelo Canal Viva, das peripécias do camarada na TV Globo nos anos de 1980, e, em especial, aquele que considero o melhor dentre seus mais de 200 personagens: o "Zezinho".

Sabe aquele cara bonachão, paulistão, com um bonezinho na cabeça, a latinha de cerveja na mão esquerda e o controle remoto na direita e que vivia ameaçando o "gôido" Jô com um "crique" (clique no controle remoto para desligar a TV) cada vez que o humorista se despedia ao final de cada programa? Aí o Jô (invariavelmente vestido com ternos dourados ou prateados) parava tudo e começava a discutir com aquele telespectador ranzinza e abusado, que vivia cobrando, esperneando e reclamando por um "stripitrise" que nunca acontecia.

Lembrou, né? Ali estava, ao mesmo tempo, uma homenagem à criança que na verdade o Jô nunca deixou de ser, uma resposta a todas as críticas que certamente ele ouvia por causa do programa "Viva o gordo" e, pra completar, uma autocrítica rasgada ao seu talento indiscutível, seja como ator, humorista, escritor, artista plástico, músico e tantas outras atividades a que o "gôido" até hoje se dedica.

Homenagem porque o próprio nome do personagem, "Zezinho", era como o pai o chamava na infância, já que o nome de batismo do Jô é José Eugênio Soares. Daí já começa a piada do cara consigo mesmo e com os próprios telespectadores. Quando tinha o humorístico na TV, Jô criou tipos impagáveis, como o "Décio" (aquele que agarrava a mulherada nos salões da alta sociedade e, quando o marido questionava, ele começava a contar as loucuras que já havia feito com a respeitável senhora ao som do "não se deprecie mulherrrrrrr"), o governador "Meu nome é trabalho" (sátira em cima do então governador carioca Moreira Franco) e o contra-regra piloto (aquele do "ihhhhh, falha nossa"). Mas o "Zezinho" era a despedida do programa e, quando ele aparecia, era a senha para a criançada desligar a TV e ir dormir.

Se ainda hoje, com um talk-show que copia descaradamente os similares norte-americanos, como o do David Letterman, Jô é alvo de críticas pesadas, imagine o que os "intelectuais" de época não falavam dele. Interessante é que o cara tinha mais quilometragem em leituras, filmes, musicais e debates artísticos do que metade de seus críticos juntos, mas nem por isso deixava de pagar o maior mico com um humor feito para agradar o brasileiro de qualquer idade e nível de escolaridade. Talvez essa capacidade de se comunicar com tantos ao mesmo tempo provocasse a ira dos "sabe-tudo", que parecem brotar como cogumelos após a chuva só pra testar a paciência dos caras verdadeiramente talentosos.

Cada vez que o "Zezinho" mandava um "Ô gôido, mas tu é muito sem graça rapá" e o Jô respondia: "Você é grosso mesmo" e o "Zezinho" treplicava: "E tu acha que tu é fino, sendo gôido desse jeito?", era como se o humorista mandasse recados cifrados aos fãs, aos não fãs e a si mesmo, exercitando, a um só tempo, a capacidade de diálogo fácil com todos os públicos. E mais: cada troca de farpas com o "Zezinho" era uma catarse, talvez um canal para acertar as contas com alguma aresta lá do subconsciente. Taí a manha do grande artista: rir de si mesmo pra remover rugas internas e, ao mesmo tempo, divertir o resto do mundo.

Mas o melhor mesmo era quando o Jô dizia: "Já sei, já sei. Quando você Zezinho reclama tanto e diz que o programa não presta é porque tá querendo o streap tease". Aí o personagem começava a saltar na poltrona, a modelo começava a tirar as luvas e, quando a coisa começava a esquentar, o Jô parava tudo por algum motivo fútil e deixava o seu alter ego no desespero, já às portas de um ataque, porque o "striptrise" mais uma vez não aconteceu.

Charlie Chaplin, por cerca de quatro décadas, entre os curtas-metragens do começo do século XX e o longa "O grande ditador", de 1939, usou e abusou da veia cômica, do exorcizar os traumas da infância e da capacidade de fazer rir e chorar a bordo do "Carlitos". Woody Allen é mais caústico e contemporâneo, sendo que nos últimos 40 anos repetiu o personagem cheio de neuras, ansioso, histérico, incompreendido, que se enche de calmantes e estimulantes em grandes filmes como "Manhattan", "Noivo neurótico, noiva nervosa" e "Zelig".

O "Carlitos", o "Zezinho" e o "Zelig" são parte de um mesmo personagem, usado pelos três humoristas para expressar as inquietudes e percepções de seus criadores em momentos distintos do século XX. Uma coisa é certa: os caras criaram, deram vida e divertiram milhões de pessoas pelo mundo com uma peculiaridade única, chamada fina ironia. E o "Zezinho", melhor que tudo, com um tempero bem brasileiro.

Câmbio, desligo!

Sérgio Augusto

Editor da Academia da Palavra

domingo, 24 de julho de 2011

A maldição dos 27 (?)

Amy Winehouse se foi e, desde que foi divulgada a notícia da morte da cantora inglesa, no último sábado (23/07/2011) os sites, blogs, jornais, revistas, emissoras de rádio e TV se apressaram em colocar "no ar" especiais, entrevistas, homenagens e demais parafernálias já previsíveis para esse tipo de ocasião. E pra variar, de uma hora pra outra, (quase) todo mundo se tornou fã incondicional e passou a "reverenciar" a grande artista que, sem dúvidas, ela foi. Grande no sentido de ser diferenciada em relação a outros "ídolos" que a cada dia a mídia cria e mata, sem se preocupar em jogar os vestígios para baixo do tapete.

Winehouse também foi um produto fabricado. Basta comparar o som que ela fazia no primeiro disco, "Frank", com o que se ouviu no segundo trabalho em estúdio, "Back to black". Dos vocais, aos ritmos, passando pelas fotos que aparecem nas capas e todo o conceito dos arranjos dá pra perceber que algum "engenheiro" passou pela vida dela, percebeu que ela tinha um pé no jazz retrô de 40, 50 anos atrás, e o outro na capacidade autodestrutiva.

Confesso que quando ouvi Amy pela primeira vez identifiquei nela laivos de Billie Holyday, em "At Last", e de Anita O´Day, em "Sweet Georgia Brown". Guardadas as devidas proporções, Amy poderia ter se tornado uma diva caso sobrevivesse aos primeiros anos da pressão dos fãs, tablóides, gravadoras e outros personagens que ajudam a destruir o artista e construir o mito em quem investem seus sonhos, frustrações e desejos. É aquela famosa curiosidade mórbida de ter prazer em ver o artista no fio da navalha, na beira do abismo, a caminho do que Robert Plant tão poeticamente canta como as "Starway to heaven".

Produto fabricado ela foi, mas ao menos foi fiel ao "Viva intensamente e morra jovem", tantas vezes cantado e levado às últimas consequências pelos astros do rock. Sendo filho do diabo, como também dizem ser o blues, o rock é uma estrada de excessos que cobra um pedágio caro, na maioria das vezes a vida de seus filhos. Foi fiel por amar a música e os palcos e se recusar a fazer o jogo dos tablóides, dos holofotes, das falsas aparências. Desse confronto entre o aqui e agora e o amanhã incerto, sobrou o ser humano sensível, frágil, viciado em álcool e drogas e incapaz de suportar as agruras e falsidades do mundo globalizado.

Amy foi original, mesmo com aquele personagem que tentaram impor sobre a grande cantora. Aquelas perucas, aquela maquiagem pesada, aqueles vestidos, pareciam ser obra de algum marqueteiro que farejou, antes de todo mundo, uma mina de ouro naquela voz firme e rasgada, nascida junto com todas as grandes do blues e do jazz. Por um tempo o cara faturou, só não esperava que a "festa" acabaria tão cedo. Tirando o personagem tosco que nela tentaram impor o que sobra? Um diamante ainda em processo de lapidação, mas já com brilho único e visceral.

Me refiro à máscara quando lembro de nomes como Lady Gaga, Beyoncé, Rihanna, Britney Spears e, no Brasil, Restart e Maria Gadú. Tirando a pirotecnia, os (d) efeitos especiais, os bilhões gastos em marketing e os golpes publicitários para se promoverem a qualquer custo na mídia, o que sobra para esses "artistas" estrangeiros? Resposta: a ilusão, o vazio e o nada.

Quanto aos nacionais, experimente botar os 4 "restarts" num palco sem aquelas roupas coloridas, aqueles óculos sem lentes e sem aquelas caretas que costumam fazer para fotos e me digam o que acontece. Alguém aí consegue lembrar de um único "sucesso" e cantarolar uma frase dos caras? Deixa pra lá, perda de tempo e raciocínio. E a Gadú? Coloquem ela sem aquele visual "muderno" num palco pra ver o que acontece. Só mesmo o Caetano, batendo nos 70, pra cantar a tal da "Shimbalaêi" (É assim que se escreve?) e dizer que é "linda".

Mas dei toda essa volta porque, quando tive a idéia de escrever essse post, milhares de "críticos musicais" pularam na frente a citaram a tal da "maldição dos 27" que é, segundo os "especialistas", a idade fatal para os verdadeiros e grandes artistas. Até agora já citaram Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Kurt Cobain e agora Amy Winehouse.

Pois aproveito pra acrescentar Brian Jones (gênio da guitarra e fundador dos Rolling Stones) e Jean-Michel Basquiat que, apesar do nome francês, era norte-americano e um dos grandes artistas plásticos dos últimos 50 anos. Basquiat não era músico, mas as telas que pintou "cantam" e, só de olhar, dá pra "ouvir" os riffs que cada um dos quadros transmite. Pois bem, a tríade sexo, drogas e rock´n´roll levou também esses dois aos 27 anos e o mito sobre os dois algarismos ganhou mais dois nomes de peso.

Se há alguma relação, ou "maldição", como queiram, entre as mortes dos ídolos e a idade em que se foram, isso já é mais um produto criado pelo fanatismo. Mas que bate aquela curiosidade em saber como a turma que passa dos 27 e chega aos 67, como é o caso de Mick Jagger (que já tem 68) e Keitih Richards, ou aos 87, como chegou Anita O`Day, ah, isso bate. Nesses três casos, a bola bateu na trave milhares de vezes e só não estufou as redes porque não quis. As da Amy, para o bem ou para o mal, já foram estufadas e bem mais cedo.

Câmbio, desligo.

Sérgio Augusto

Editor da Academia da Palavra

Foto: divulgação

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O grande ator de si mesmo

Paulo Coelho não é um impostor, nem um aproveitador, nem um aventureiro. Na verdade ele é aquilo que o velho “inimigo íntimo” Raul Seixas não parava de repetir: um grande ator. É sério! Mas não um ator que veste, dá vida e morte a personagens alheios, mas um grande ator do personagem Paulo Coelho. Raulzito se dizia um grande ator porque se “fingia de cantor e compositor” e todo mundo acreditava. Pois o superstar Paulo Coelho ainda tentou dar suas cacetadas como ator de teatro e cinema, dramaturgo, compositor, mas chegou ao estrelato mesmo como escritor. E como conseguiu escrevendo aquela literatura mais precária que bula de remédio?

Lá pelas tantas o Fernando Morais, na biografia “O Mago”, conta que o escritor fez um tal de um pacto com o demo. Fez e desfez, é verdade! Ofereceu a alma em troca do sucesso mundial e depois voltou atrás, rabiscando numa folha em branco, com letras vermelhas, que o trato estava desfeito e que havia “vencido a tentação”. Fácil né? Tão fácil quanto os personagens e narrativas “Control C” + “Control V” de “Diário de Um Mago”, “Brida”, “O Alquimista”, “A Bruxa de Portobelo” e outros “clássicos” que o levaram a Academia Brasileira de Letras e as centenas de prêmios internacionais já acumulados pelos mais de 140 milhões de exemplares vendidos.

Por outro lado, temos que reconhecer que o cara tem, e usa como poucos, duas coisas que a maioria dos mortais também tem, mas como enfeite: alma de marqueteiro e persistência. É gratificante saber que o sujeito foi internado em hospícios, levou choques elétricos, usou tudo quando foi tipo de droga, participou de centenas de seleções em editoras, para tentar publicar ao menos seus contos e, só na casa dos 40 anos de idade, conseguiu o que queria desde os 13 anos: ser um escritor lido e famoso no mundo inteiro.

Assisti a uma palestra do Fernando Morais em que ele dizia que Paulo é malhado por críticos invejosos, coisa de “brasileiro que não suporta o sucesso do próximo”. Será isso mesmo? Não será o próprio Paulo Coelho o primeiro a criar esse clima de hostilidade com aquela história de que faz até chover quando lhe dá vontade?

Quando chega a uma capital européia como, por exemplo, Budapeste, e não encontra no aeroporto os flashs, holofotes, fãs atrás de autógrafos e demais elementos que alimentam os ávidos por reconhecimento, ele se torna um cara furioso, intratável, pior que criança birrenta. Mas, se dentro de 20 minutos as luzes se aproximarem, aí ele entra em seu habitat e esquece todas as mágoas do passado.

Aí se pergunta novamente: como ele consegue fazer tanto sucesso? A razão é simples: o ser humano não vive e não quer viver sem ídolos, seja para o bem ou para o mau. E com toda a “bagagem” de já ter transitado pelo bem e pelo mau (ou pelo menos as idéias que temos desses paradoxos), Paulo sintetiza o sonho de fama e fortuna apesar de todos os pesares.

Mas pelo que entendi até agora, o cara não se importaria se os 140 milhões de exemplares já vendidos não lhe dessem a fortuna que acumulou. Tanto é que a casa onde mora, no interior da França, é de uma simplicidade franciscana. Para ele, o que importa é a fama, o estrelato, as luzes, o reconhecimento e os aplausos de bilhões de pessoas mundo afora. Desde criança a meta era ser um escritor lido e famoso no planeta, não importando se produzisse literatura policial, fotonovela, bula de remédio, coluna de horóscopo, quadrinhos eróticos, tratados de metafísica ou receitas de bolo.

O problema é que só aparece um grande ator desse tipo há cada 100 anos e, no caso, o brasileiro ainda deve ocupar a vaga por pelo menos mais uns 20 ou 30 anos. E depois que o Paulo Coelho “bater as botas” ainda teremos que aguentar o legado que vai deixar e a saudade dos fãs e admiradores. É a vida irmão, é a vida. E vamo que vamo!

Câmbio, desligo

Sérgio Augusto

Editor da Academia da Palavra

Foto: G1 


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O humor nos tempos do chip

Os especiais de fim de ano de Chico Anysio e Renato Aragão me deram a sensação de nostalgia por um lado e reflexão por outro. Assistindo as duas produções, cheguei àquilo que o Marcelo Tás, do CQC, tão poeticamente chama de "caixa cheia de micróbios chamada televisão brasileira": enquanto Renato teve sua vida dramatizada, contada por ele mesmo em entrevista e foram mostradas imagens de arquivo da trajetória de 50 anos do seu Didi Mocó, Chico Anysio, que criou mais de 100 personagens, teve uma homenagem muito abaixo do que merecia, pra não falar decepcionante.

Quem foi criança nas décadas de 1970 ou 1980, como eu fui, sabe do que estou falando. O Chico sempre foi bem mais malicioso e seu público era mais adulto, mas o Renato, junto com Os Trapalhões, é que fazia a felicidade da turma da "poltrona", a partir dos 2, 3 anos de idade. Não tinha criança que não parasse o que estava fazendo, todo domingo, às 7 da noite, para assistir as peripécias dos quatro heróis que tão bem simbolizavam o povo brasileiro: Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Até hoje aquela musiquinha de abertura dos "Trapa" faz falta nas noites de domingo, quando o que se vê na telinha do "plim plim" é o Faustão e seu festival de bizarrices.

Os Trapalhões satirizavam tudo: das novelas globais a filmes estrangeiros, passando por dramatizações de músicas e "pegadinhas" incríveis. Quem poderá esquecer Renato empunhando aquele vestido vermelho, peruca, batom, pernas cabeludas e recebendo o "Muça" cheio do "mé", o Zacarias com o urso de pelúcia ao som de Terezinha, de Chico Buarque cantada por Maria Betânia? ("O primeiro me chegou/ como quem vem do florista/ trouxe um bicho de pelúcia/ e um broche de ametista..."). E, além de tudo, a cada 6 meses soltavam um filme, que na cabeça das crianças da época era o máximo! Que pena que os anos 80 acabaram...

A Globo acertou em cheio ao contar a história desse herói tão brasileiro chamado Didi Mocó, que apesar dos 50 aninhos continua criança. Mas por outro lado, a tal da "Vênus Platinada" prestrou um antifavor a todo mundo com o especial do Chico Anysio. Deu pena do cara. Como puderam colocar ele no ar na condição de saúde em que está? Personagens clássicos como o Popó, o Professor Raimundo e o Valfrido Canavieira saíram com a voz idêntica, as piadas sem graça, o intérprete lento, com olhar opaco e quase sem vida. 

Para alguém, como eu, que se acostumou a Justo Veríssimo dizendo em alto e bom som "Eu quero que o pobre se exploda" ou o Bento Carneiro mandando "Calunga, seu cafifento", a Globo desrespeitou um dos maiores humoristas de todos os tempos. Não seria mais digno contar a vida do Chico como em uma peça de teatro, colocando alguns dos seus melhores personagens em formato de marionetes ou coisa parecida? E por quê não mostraram arquivos do Chico em plena forma, já que o que o banco de imagens da emissora é vasto?

Os nossos ídolos envelhecem, o humor, guardadas as devidas proporções, também envelhece e o que se pode fazer é adaptar os formatos aos novos tempos. Na era digital em que se vive não seria moleza prestar um tributo de respeito ao Chico Anysio? Se ele vier a falecer este ano será muito triste ficar com a imagem dele já alquebrado, como mostrada no último especial. Chico Anysio merece respeito e não aqueles ex-BBBs falidos que colocaram pra "contracenar" com o mestre. Se queriam atrair audiência, o que conseguiram foi expor Chico ao ridículo total. Isso não tem perdão! 

Como já disse antes, o humor envelhece e não venham dizer que não. Basta assistir a "Escolinha do Professor Raimundo - Turma de 1991", que o canal Viva anda reprisando, para comprovar. Ali, Chico Anysio reuniu grandes nomes da história do humorismo nacional, como Walter D´ávila, Brandão Filho, Rogério Cardoso, Zezé Macedo e Berta Loran. Dando uma conferida nas piadas, sinto que a "Escolinha..." envelheceu. São piadas que, para os padrões a que nos acostumamos nessa primeira década do século 21, nem chegam a descontrair. O mesmo digo das "Aventuras do Didi", onde Renato Aragão, ainda hoje, insiste em continuar fazendo TV. No caso do ex-trapalhão, dá para identificar piadas, "apostas" e "pegadinhas" feitas há 30, 40 anos e agora requentadas e servidas na hora do almoço aos domingos.

O humorismo de hoje é bem mais malicioso. Aos domingos, o "Pânico na TV" ficou como uma espécie de substituto dos Trapalhões. Já o CQC, às segundas-feiras, cobre o buraco deixado por outro humorista de grande sucesso dos anos 80: Jô Soares. Até nisso o perfil é semelhante: enquanto a trupe de Emílio Surita é mais escrachada e popularesca, a turma de Marcelo Tás é um pouco mais refinada e irônica.


Agora quem tem acesso à TV paga assiste o "Cilada", por sinal estrelado por um dos filhos de Chico Anysio: Bruno Mazzeo. Caso a Globo colocasse o "Cilada" na programação convencional faria sucesso, com certeza. Mas a cabeça dos programadores e diretores comerciais da emissora veleja por outras paragen$, sem dúvida...

É isso aí "psit". E vamo que vamo que o show não pode parar.

Câmbio, desligo

Sérgio Augusto

Editor da Academia da Palavra

Fotos: Divulgação

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Arbitragem x Tecnologia: Inimigos íntimos

Fim de Copa, Espanha campeã e uma única certeza: a arbitragem não foi tão desastrosa quanto se andou comentando. O que acontece é que nunca a tecnologia foi tão longe nesse negócio de filmar os detalhes da partida. Nunca antes se teve tanto acesso a tantos e tão visíveis ângulos de um mesmo lance. Para quem assiste na TV fica parecendo que o juiz e os bandeirinhas são cegos e surdos, mas entra em campo e comanda a arbitragem com milhares de vuvuzelas cantando e a pressão do mundo inteiro em cima e depois me diz se é tão fácil quanto parece.

Por um lado, a tecnologia digital só falta nos permitir participar do jogo, mas pro outro ficam ainda mais patentes as falhas humanas de quem conduz a arbitragem. Nesse caso, o jeito é tentar errar o menos possível para o foco não se desviar da partida e cair no trio de arbitragem. 

Agora falando da Espanha, não vou dizer que gostei da final, pois o resultado era demais previsível. A Espanha tinha mais time e força. Mas o que me chamou a atenção foi a raça dos holandeses. Na maioria dos lances, a sola das chuteiras dos caras é que cantou mais alto, mas o que gostei mesmo foi de ver os holandeses inteiros no ataque, no final da prorrogação, tentando e tentando o empate pra tentar a loteria dos penâltis. Não deu! Espanha campeã e fim de papo.

Volto a dizer: a Copa da África não foi a dos meus sonhos. O nível técnico foi estupidamente baixo e somente em algumas partidas tive prazer em ver futebol. Aquele Eslovênia 3 x 2 na Itália foi excelente. Uruguai x Gana foi dos mais bonitos jogos que já vi em Copas e o jogo em que a Celeste foi desclassificada também. Do Brasil não posso destacar qualquer dos cinco jogos. O time teve míseros momentos de lucidez e realmente não mereceu chegar às semi. Quem sabe uma boa preparação e um bom elenco em mãos possa dar ao próximo treinador condições de disputar o título com mais diginidade.

E bola pra frente que o Brasileirão vai recomeçar. Não é grande coisa, mas distrai que é uma beleza naquelas tardes quentes e sonolentas de domingo.

Câmbio

Sérgio Augusto

Editor da Academia da Palavra

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Luto rubro-negro

Quando o Flamengo era O TIME, isso por volta de 1980, quando ganhou o Mundial de Clubes em Tóquio, enfiando 3 x 0 no Liverpool, eu tinha meus cinco anos de idade. Talvez por isso comecei a torcer pelo rubro-negro, que era o melhor do mundo. Cresci, portanto, vendo os shows de bola de Zico, Adílio, Júlio César, Júnior, Andrade, Leandro, Rondinelli, Tita, Lico, Nunes, Cláudio Adão e companhia ilimitada. E, justamente porque os esquadrões do futebol não são eternos, parei de torcer entusiasticamente pelo Mengo por volta de 1993, quando a geração de Júnior, Charles Guerreiro, Marcelinho Carioca, Djalminha e Paulo Nunes deixava o clube e ia cantar em outra freguesia.

Abro aqui um parêntesis, às vésperas da final da Copa da África, para comentar a decepção desse time atual, que veste o Manto Sagrado rubro-negro. Não bastasse perder o Cariocão e a Libertadores desse ano, o time ainda está cheio de maus elementos. O que dizer de Adriano posar pra fotos empunhando metralhadora, como um reles traficante? E Vágner Love dançando em baile funk cercado de traficantes no morro?

Pra completar a quadrilha, o goleiro Bruno, titular absoluto e quase dono do time, me apronta uma dessas: manda matar uma ex-amante, mãe de filho dele. Trucidaram a coitada, estrangularam, cortaram o corpo em pedaços e deram aos cachorros e o cara ainda assistiu a tudo. É justo um tipo dessa estirpe defendendo o gol que já foi de Raul Plassman, Baldo Fillol, García, e mais recentemente Júlio César? Definitivamente, o presídio é pouco pra esse elemento. Podem me chamar de radical, mas crimes como esse deveriam ter julgamento sem defesa, só com promotoria. Lógico que todos têm direito à defesa, mas e quem é torturado, morto e vira comida de cachorro, também não teria direito de se defender?

O Flamengo é maior que traficantes, assassinos e outros marginais da mesma espécie. Já esteve no topo do mundo e, que eu lembre, jamais vi um Zico, um Júnior, um Leandro, acusados de assassinato ou envolvimento com traficantes. É por isso que eu digo que gente como esse goleiro não deveria ter oportunidades na vida. Quem premedita um crime bárbaro desses sequer deveria andar pelas ruas, como cidadão de bem. É isso!

Sérgio Augusto

Editor da Academia da Palavra

terça-feira, 6 de julho de 2010

Guerreiros celestes

O Uruguai também tá fora da Copa da África mas de uma coisa ninguém pode duvidar: é o time mais raçudo do torneio. Como esquecer aquele jogo contra Gana, quando o atacante uruguaio preferiu meter a mão na bola em cima da linha, ser expulso, mas evitou o gol que certamente eliminaria a Celeste? Nos penâltis, o Uruguai venceu Gana e mostrou o que é gana de verdade.

Nesse jogo de hoje confesso, como brasileiro, que bateu uma ponta de inveja da alma uruguaia. Levaram o primeiro da Holanda, empataram, levaram o segundo, o terceiro, descontaram, e, até o último segundo de jogo, foram pra cima, pressionaram, pressionaram, mas dessa vez não deu. Honrou como poucos o país que defende!

Parabéns atletas uruguaios. Dá vontade de torcer quando se vê esses guerreiros em campo.

Sérgio Augusto

Editor da Academia da Palavra

domingo, 4 de julho de 2010

Arriba Uruguai!

Tô começando a achar que o pé de gelo do Mick Jagger respingou por aqui. Cada vez que o cara vai e torce para uma seleção na Copa da África, essa seleção vai pro vinagre. Pô, torci pra Brasil, Argentina e Paraguai, na sequência, e os três já tão voltando pra casa mais cedo. Daqui a pouco é a vez do Uruguai. Mas não desisto não, hehe. A Celeste vai ganhar e chegar nas semi. Algum sul-americano tem que ser finalista, é ou não é rapaziada?

Sérgio Augusto

Editor da Academia da Palavra

sexta-feira, 2 de julho de 2010

E não é que o verde e amarelo alaranjou?

O Brasil tá fora da Copa e não sem avisos dos secadores e pseudo-especialistas-de-época-de-copa-de-plantão. Levou virada de um timeco chamado Holanda e até agora não se consegue explicar onde começou o erro. Lá pelas tantas me vem o Galvão Bueno e fala em "situação que vinha se desenhando há meses", no caso do Felipe Melo perder a cabeça no momento mais importante. Perdeu cabeça, tronco e membros. Foi triturado pela inexperiência de quem dá show em jogo amistoso e leva o maior "caldo" na hora do "vamo vê".

Me desculpem as expressões tão de arquibancada, mas só assim pra desabafar tanta frustração. Bem, como consolo dá pra lembrar da seleção do Parreira na Alemanha em 2006. Sim, aquela que levou gol da França, baixou a cabeça e quase pediu desculpas por existir. O time do Dunga pelo menos lutou e foi pra cima em busca do empate. Sem a categoria e o talento de Zico e Cia depois que levaram o terceiro da Itália em 82 e quase empataram aos 45 do segundo tempo, naquela cabeçada do Oscar que o Dino Zoffi agarrou em cima da linha. O time inteiro perdeu a cabeça hoje. Além de tronco, membros e cérebros. Se perdesse o bolso, aí é que eu queria ver o que aconteceria...(aí a viagem tá ficando pesada, né rapaziada?)

Nessas horas é que o teimoso sofre duplamente. Sofre na primeira, por ter que contrariar todo mundo em troca de um sentimento qualquer de orgulho; e sofre na segunda, quando a opinião que levanta como uma bandeira sem céu ao fundo se esfarela no vão do fracasso (não acredito! Até poesia já tô fazendo agora).

Pois o Dunga contrariou toda a nação, não levou Ganso, Neymar, Ronaldos, Adrianos e outros beberrões do mesmo quilate para dar chance a Josué, Michel Bastos, Gomes, Gilberto sei-lá-o-que (não é o Silva) e um punhado de outros pernas-de-pau. Por contusão perdemos Elano, hoje Felipe Melo foi expulso e não tínhamos, no banco de reservas, um único jogador macho que chamasse a responsa e dissesse pro Dunga: "Professor, me ponha dentro que eu resolvo".

Falando em Michel Bastos, adoraria saber como um sujeito desses consegue se profissionalizar em futebol. Cara, durante os 5 jogos na África do Sul não vi esse ala acertar um mísero cruzamento, nem fazer uma única triangulação, nem puxar um contra-ataque, além das faltas, faltas, faltas e cartões que parece ter feito questão de levar. Nem sei quantos foram, mas o de hoje foi idiota e por muito pouco não levou um avermelhado nas fuças.

Sabem o que vou fazer agora? Vou torcer é pra Argentina. Sem essa de rivalidades e outras picuinhas. Os caras ganham a mesma fortuna que os brasileiros e querem, além do dinheiro, ganhar a Copa. Aliás, me digam aí quem é o craque dessa Copa?

Messi, Cristiano Ronaldo, Kaká, Drogba, Hooney, Robben? Tirando o Messi, que ainda faz boas jogadas com a alvi-azul, o Ronaldo português é aquilo mesmo que o Casagrande falou: suas jogadas em replay são maravilhosas, mas jogando ao vivo é uma calamidade. Só marketing, comerciais e quem sabe filmes no cinema, mas jogar que é bom...nada. Aliás, bacalhau também nada né? (Perdão patrícios, também sou descendente portuga viu?)

Drogba e Robben? Que é isso? o africano só fez uma ou outra jogada, um ou outro gol, um deles no Brasil, e só. O Robben é o holandês que só puxa para o meio e chuta de esquerda e olhe lá. Nada além de uma ilusão.

Mas o que me decepcionou mesmo foram as atuações de Wayne Hooney e Kaká. Hooney era apontado, no começo do ano, como o provável cracaço da Copa. Fazia e acontecia pelo Manchester, era chamado de "Pelé branco" e outras heresias. Bastou a Jabulani rolar na África pro cara mostrar a que veio: nada (aqui nem rola mais bacalhau, que já tá frito!).

E o Kaká? Expulso infantilmente contra a Costa do Marfim. Entrou na provocação do adversário, apanhou feito ladrãozinho no xadrez e ainda foi pro chuveiro mais cedo. Pro cara que joga há anos na Europa deixar-se envolver assim é, no mínimo, coisa de criança. Outro candidato a craque que, talvez em 2014, faça a diferença, ou a indiferença, sei lá. Ele repetiu o que o Ronaldinho Gaúcho fez em 2006: amarelou. Um amarelo mais amarelo que o amarelo da camisa brasileira.

Na boa, quer saber quem é o craque da Copa? Ele nem entra em campo e chama-se Diego Armando Maradona. Dá verdadeiros shows na beira do campo, faz milhões de caras e bocas, provoca todo mundo nas coletivas e ainda agradece a Deus quando ganha. Dieguito é o showman que tanto faz falta dentro de campo. Politicamente incorreto? Prepotente? Maldito? Chamem do que quiserem que ele gosta é de tumulto mesmo. Não fosse assim nem teria vindo ao mundo. E tome bolada em brasileiros, franceses, alemães e quem mais se meter a besta. Esse é O CARA.

Finalizando, daqui há quatro anos a ilusão volta, o sonho já cinco vezes realizado também e a possível vitória agora em solo brasileiro. Com ou sem Jabulani, o jeito agora é se contentar com Ronaldo, Vagner Love, Washington e os trombadores de plantão do Brasileiro, que vai recomeçar assim que o Mundial acabar.

Câmbio, desligo!

Sérgio Augusto

Editor da Academia da Palavra

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A Copa do faz-de-conta

Definitivamente a Copa da África é a pior de todos os tempos em termos técnicos. Tenho só 35 e só passei a acompanhar o torneio de 82 pra cá, mas pelo que já assisti nas coletâneas, reafirmo o que digo acima. Pensei que não haveria um mundial mais burocrático e fraco que o de 1990, na Itália, mas me enganei. Além de ser a Copa dos pernas-de-pau, essa ainda vem a ser a Copa do marketing temperado com sangue. É sério rapaziada! Já viram quantos jogadores saíram de campo sangrando na cara, nas pernas, etc? Acabo de assistir Portugal 7 x 0 Coréia do Norte e mesmo assim não me convenço da qualidade desse futebol.

Dia desses contei quantos passes algumas seleções trocam antes de errar o fundamento. A Itália, no jogo contra a Eslovênia, não deu três passes seguidos sem errar. Eu disse três passes seguidos (?). Quando penso que na Itália jogam alguns dos melhores e mais caros jogadores do mundo, chego à conclusão de que o futebol faliu mesmo.

O Brasil já passou a duras penas pela Coréia (2 x 1) e também pela Costa do Marfim (3 x 1). Só pelo fato de ter enfiado três na Costa do Marfim já li nas manchetes algo como "futebol-arte". Pelo jeito não sabem mais o que é futebol-arte. Dá uma conferida no que os Meninos da Vila fizeram no Paulistão dessa ano e aí sim terão algo que chegue perto dessa classificação. Falo com categoria que os santistas chegam a 30% do que seria o futebol-arte e olhe lá.

Me pergunto ainda como "seleções" a exemplo da Costa do Marfim, Eslovênia, Sérvia se classificam pra disputar uma Copa? O nível é muito ruim, pior que futebol amador. E não venham jogar a culpa na tal da Jabulani, a bola oficial do torneio, que na rua onde cresci a gente jogava é com a Chuveirinho e a Dente-de-Leite mesmo e, modéstia à parte, era cada jogão....O famoso e saudoso "racha canela" dos meus tempos de moleque, hehehe.

Mas deixa pra lá. Sou mesmo um sonhador que ainda acredita no futebol de categoria, o que está em extinção. Se Cristiano Ronaldo, Kaká (foto - divulgação), Drogba e Hooney são os deuses da bola, eu jogo a toalha. Prefiro o Brasileirão e as trombadas de Washington, Fred, Vágner Love, Ronaldo, Robert e mais uns e outros, além de Ganso, Neymar, André, Madson e o Robinho, claro, o único que ainda se esforça nesse timeco do Dunga.

E vamo lá que o show não pode parar.

Sérgio Augusto



Editor da Academia da Palavra

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O Canto do Cisne do Futebol Arte

O Canto de Cisne do Futebol Arte

Como todos os fãs do futebol arte, é claro que tenho a maior saudade da seleção de 82. Os caras não ganharam a Copa, mas e daí? Pior pra Copa do Mundo. O que importa é que foi um dos últimos times a fazer arte com a bola nos pés. Arrisco até a dizer que os Meninos da Vila do Santos Futebol Clube de hoje, Ganso, Robinho, Neymar, André, Madson, fazem uns 30% do que aquele timaço de 1982 fazia.

Estamos às portas da Copa da África e vai aqui nesse post minha pequena homenagem ao que chamo de futebol de verdade: sem marra, sem marketing, só na ginga e na genialidade. É isso aí.

Sérgio Augusto


Editor da Academia da Palavra

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A Ilha de Bergman

Ingmar Bergman é sempre Ingmar Bergman e mesmo em seus momentos menos inspirados ainda é infinitamente melhor que os Burtons e Tarantinos da vida. É o que tenho a dizer após assistir um documentário sobre o cara. Sem nenhuma divulgação ou estardalhaço, eis que lá pelas tantas encontro na locadora "A Ilha de Bergman" e mais por curiosidade o levo pra casa.

Cara, o documentário tem só 83 minutos e nenhuma produção especial, mas é mais rico e profundo que a maioria dos "Homens de Ferro" e "Alices" que andam enchendo as telas e a paciência de quem gosta de cinema. Direto da Ilha de Farö, ali há um Bergman meio receoso de comentar sua obra, meio reticente por admitir que a idade chegou e não pôde fazer a metade do que gostaria.

Fazer o quê, né? Ingmar poderia ter concebido apenas "O Sétimo Selo", ou "A Fonte da Donzela" ou ainda "Gritos e Sussurros" que já seria um mestre. Mas ele abusou da capacidade de criar e ainda soltou "O Ovo da Serpente", "Sonata de Outono", "Persona", "Através do Espelho" e "Fanny e Alexander". Chega né? Já basta e não precisa dizer mais nada.

Quando perguntado sobre seus demônios, o cineasta é mais uma vez provocativo. Diz que tem medo de gatos, cães, pássaros mas não teme a morte. Teme o rancor e o medo, mas talvez não se apiade ou acanhe diante da hora fatal. Chego à conclusão de que Bergman, se tivesse mais uns dez anos de vida pela frente, ainda teria inventado uma forma de neutralizar o tempo, ainda que em gotas.

Isso me faz lembrar a cena de "O Sétimo Selo", quando o cruzado se defronta com a morte e a convida para uma partida de xadrez. Já viu metáfora maior que esta? O cara luta por um ideal, fica cara a cara com a morte, a desafia para um duelo e, diante de uma mar calmo, que por incrível que pareça não conspira couraças, ainda filosofa sobre a infinitude do tempo, isso sem se esquivar de abstrações de tempo e espaço. Só Bergman mesmo!

Dica de um quase cinéfilo: assista "A Ilha de Bergman". No mínimo, o sueco vai te provocar questionamentos e isso já vale o dia. Esse veio mesmo pra questionar e provocar, mas da maneira como só ele sabia fazer: com altas doses de ironia e simplicidade.

Sérgio Augusto
Editor da Academia da Palavra

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Salve the rider on the stom

Sábado passado assisti pela primeira vez em DVD um dos filmes que mais marcou a minha geração e que continua, como disse o diretor Oliver Stone, um "assalto a todos os sentidos": The Doors. Acho que essa foi a vez de número 50, mas oito anos após a última audição.

Muita loucura, poesia, rock, diversão e entretenimento nesse clássico cult. Um show nas telas a atuação de Val Kilmer no papel título e lindas canções e imagens de gabarito para contar um pouco do "Rei Lagarto". Nos extras é que percebi que Stone poderia ter ido muito além do que propunha.

Uma das cenas cortadas da edição mostra o que seria um final alternativo e mis justo para o filme. É linda a penúltima cena, quando a câmera percorre o cemitério Pére Lachaise, em Paris, e mostra os túmulos de Oscar Wilde, Bizet, Moliére, Rossini e, por fim, Jim Morrison.

Enquanto o fundo musical tem a melodia de "Adágio" tocada pelos Doors e Morrison declamando "The severed garden", a tomada se aproxima, aproxima, aproxima e mostra o que seria a última morada do bardo, velas, flores e seu busto em pedra.

Stone deveria ter usado a cena que aperece no DVD extra, que mostra o cemitério e depois Jim abrindo uma porta e sendo conduzido pela luz até uma platéia que parece estar em outro plano de existência. A cena é isso mesmo: Jim saiu da vida para entrar na eternidade e o diretor não sacou que seria esse o final mais adequado ao mito.

Mas deixa pra lá. The Doors foi continua sendo um filmaço, o relato sensível e comovente da trajetória meio Orfeu, meio Dionísio, um pouco Nietzche, um tanto Baudelaire e quem sabe Rimbaud, em seu hedonismo adolescente, de Jim Morrison. Salve Morrison, The Rider on the storm.

Sérgio Augusto

Editor da Academia da Palavra

terça-feira, 13 de abril de 2010

A extinção inglória dos dinossauros de plantão

Fala-se muito hoje em gestão de pessoas, potencialização de resultados, superação de metas, liderança e outros termos que tais. E diante de tantas novidades e palavreados bonitos, percebo algo interessante e, acima de tudo, importante: os chefes intimidadores, chantageadores e que se acham acima do bem e, especialmente, do mal, estão com os dias contados e sua extinção tem tudo pra ser tão inglória quanto a dos dinossauros.

É verdade! Tem muito incompetente por aí que, por ter um cargo de chefia, acredita que vai viver na impunidade a vida inteira. As escolas e universidades, por outro lado, já preparam os alunos para não aceitar constrangimentos vindos do "andar de cima" e a geração que chega ao mercado, por sua vez, já bate de frente e desafia esses dinossauros. O clima fica pesado, é verdade, mas isso já demonstra que o cara que não tratar de se reciclar tende a sumir como a inútil poeira que depois de se misturar a outras substâncias se torna a chuva ácida.

Tive um chefe que certa vez me disse uma frase até hoje inesquecível, uma verdadeira lição de vida: "Sérgio, eu sei que o salário que lhe pago não é o melhor do mundo. Mas você é pago para isso, para pensar". É claro que o repórter aqui ficou lisonjeado; imagina o meu "drama": posso me dar ao luxo de pensar (o que é privilégio de poucos) e ainda ser pago pra isso! Talvez tenha dito isso para menosprezar, mas o efeito foi contrário. E hoje a empresa dele está parada no tempo e no espaço; todas as outras concorrentes que vieram depois cresceram, enquanto aquela, há muito, teima em acreditar que ainda existe. É a vida, irmão. É a vida.

Portanto, os intimidadores de plantão que abram os olhos, pois além de ultrapassados, não deixam boas lembranças ou impressões naqueles que comandam. Bola pra frente rapaziada, e vamos tratar de abreviar, de uma vez, a vida útil desses animais caquéticos.

Saudações

Sérgio Augusto

Editor da Academia da Palavra