domingo, 4 de novembro de 2012

Essa brincadeira um dia já se chamou "Marketing Político"


Passado o período eleitoral, prefeitos e vereadores eleitos, prontos pra assumirem seu cargos, chegam ao fim as ilusões e as campanhas de marketing amadoras. Agora sim, é possível analisar o teatro de péssimos atores em que está inserida a estratégida de campanha política no Brasil. Falo em Brasil porque, do Norte alo Sul, é tudo a mesma coisa. Tudo quanto é candidato é perfeito, teve infância difícil e, por saber o que é pobreza, vai mudar a miséria em que se vive e se morre. Pra começar, todos, sem exceção, me vieram com uma conversa furada de "crise mundial que afeta a economia brasileira". Que crise, mermão?

No Brasil a gente nasce, cresce e morre na crise e o que o resto do mundo assiste, agora, é menos que 10% do que a gente sente no Brasil desde sempre. Falam que a Europa tá quebrada. Mas quebrada em que sentido? Pelo fato do cara não poder ser consumista ao extremo? É isso a crise? Pois coloca uma cidade como Antuérpia ou Estocolmo no padrão Brasil de bagunça, com trânsito caótico, violência descontrolada, saúde e educação falidas, corrupção institucionalizada e legitimizada por lei e farsa de julgamento de "mensalão", que num lugar como a Dinamarca já teria dado em presídio até pro presidente da República. (mas deixa pra lá; o Brasil nasceu como ponto de desembarque de ladrões, estupradores, assassinos e o resto da escória que vinha da Europa. Que futuro um lugar desse pode ter? Vamos logo ao que interessa)

Assisti meia dúzia de programas eleitorais e ainda não acredito que torraram milhões de reais naquilo. Uma porcaria maior que a outra, em tudo quanto é estado. E pra quê? Pra eleger os mesmos candidatos que há séculos (ou seriam dinastias?), tão aí rapinando os cofres públicos. Não teve uma mísera campanha política com algo inovador. Ainda hoje, 52 anos após o pleito que elegeu John Kennedy presidente do Estados Unidos, o marketing político no Brasil ainda não chegou perto do que o velho Joe Kennedy, patriarca do clã, concebeu na arena do poder. E, diga-se, a estratégia dele já era por demais simplória.

John Kennedy nem sequer pensava em ser político. Só entrou em combate porque o irmão mais velho - Joseph Kennedy Jr. - morreu quando seu avião foi abatido na Segunda Guerra Mundial. Sequer sabia discursar e não sabia o que significava "composição política". Queria mesmo era ser professor de História e Direito em Harvard (EUA) e continuar levando sua vida de "bon vivant", no que era acompanhado pro Frank Sinatra, Sammy Davis Jr., Dean Martin, Peter Lawford e outros do famoso "Hat Pack" (ele deu provas de que esse papel ele teria desempenhado bem melhor)...

Pois lá pelas tantas, Joe pagou diretores de cinema para ensinarem John a se portar diante dos holofotes e olhar direto para as câmeras, como se estivesse falando individualmente para cada telespectador. Kennedy era jovem, bem apessoado, e, bem doutrinado, dizendo exatamente aquilo que os norte-americanos queriam ouvir, quando queriam ouvir, bateu Richard Nixon, que, barbado, suando muito e sem familiaridade com o circo dos debates de TV, ficou com a fama de ser o velho e batido "establishment". (Ambos eram essa palavra aí, mas Kennedy era a marionete bem embalada comandada pelo pai).

Quer mais? Pois anos antes, na campanha de Jack (John) para senador, Joe pagou um porteiro, com nome homônimo ao do adversário do filho nas urnas, para que ele se candidatasse e confundisse o eleitorado. Muitos acabaram votando no porteiro e o adversário de Jack apanhou feio. Sujeira do velho Kennedy? Eu diria falta de ética. Mas comparando com o que muitos candidatos a prefeito e vereador fizeram recentemente, parece brincadeira de secundaristas na hora do recreio.

E o golpe de mestre? Joe Kennedy já tinha péssima fama e preferiu, durante a campanha do filho, ficar na sombra. Anos antes, diante dos protestos de muitos "cidadãos respeitáveis", um personagem influente que o escolheu para um cargo de grande importância, na área econômica nos EUA, lascou: "Nada melhor que um ladrão para pegar ladrões". Pois assim que Jack acordou eleito presidente norte-americano, Joe declarou: "Agora posso aparecer ao seu lado nas fotos oficiais". Realização de um sonho. Desde muito cedo, Joe queria ser o presidente dos EUA, mas seu passado de pouca ética inviabilizou o desejo.

Não esqueçamos: faz mais de meio século que Joe Kennedy arquitetou uma campanha política banal até para aquele tempo. Aí bate aquela dúvida: se o marketing político no Brasil está décadas atrás do que o patriarca Kennedy fez há mais de meio século, onde então os marqueteiros tupiniquins se inpiram para bolar essas milionárias peças "geniais", que mostram os atores figurantes que são nossos políticos? (Resposta: SÓ PRENDENDO!)

Câmbio, desligo!     
Sérgio Augusto - Editor da www.academiadapalavra.blogspot.com

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O quase rei e o herdeiro da coroa jamais destronada




Heleno de Freitas nasceu e morreu para o futebol e a vida enquanto Pelé nascia e se perpetuava para o mundo. Até aí nada demais, não fossem as tantas coincidências que se encarregam de emparelhar o trágico ao glorioso, a loucura à perspicácia, o fechar das cortinas à lenda viva. Tudo isso pude comprovar dia desses após assistir “Heleno, o príncipe maldito”, e dar o apito final na leitura da biografia com que tentaram homenagear o lendário atacante do Botafogo de Futebol e Regatas. Batendo datas, jogos memoráveis e também lances irrelevantes, cheguei à conclusão que Heleno e Pelé são os dois lados de uma mesma bola, por muitos conhecida como “a vida é um jogo sem replay, nem prorrogação”.

Heleno despontou nos profissionais do Botafogo carioca em 1940, ano em que Edson Arantes do Nascimento nasceu. Aprontou umas e outras, bateu nos adversários (e até nos próprios companheiros), pilotou os carros mais luxuosos da época, conquistou as mulheres mais belas e, apesar de tudo isso, foi campeão uma única vez: carioca, em 1949, mas vestindo a camisa do Vasco da Gama. Nasce o primeiro mito: o melhor jogador do Brasil e das Américas foi quatro vezes vice-campeão pelo time que tanto amava e a quem dedicava o sangue, e venceu um torneio pela equipe que gostava de judiar.

Inaugurado o Maracanã em 1950, Copa do Mundo no Brasil, nada mais natural que Heleno, estrela do Sulamericano em Santiago, no Chile, cinco anos antes, comandasse o temido ataque brasileiro, formado ainda por Ademir de Menezes, Zizinho e Jair Rosa Pinto, certo? “Nunca”. Uma única, solitária, rasteira e definitiva palavra, do treinador da Seleção, Flávio Costa, para quem havia o jogador apontado um revólver meses antes da convocação definitiva, tirou o atacante do Mundial. Morre o segundo mito: Costa havia dito que sem Heleno o Brasil levava o caneco.

E não é que o Brasil conseguiu perdeu de virada, dentro do "Maraca" lotado, para um Uruguai que só tinha uma jogada: lançamento de Obdulio Varela, entrada de Giggia como uma flecha pela ponta-direita, chutaço no canto esquerdo do arqueiro brasileiro Barbosa? Uruguai campeão, nem o próprio capitão Obdulio acreditava. Só se deu conta da parada no dia seguinte, quando se reconheceu na capa de um jornal carioca, após uma noitada impublicável num cassino de má fama. Não tem jeito; boemia rima com bola em qualquer época...



Mas o show, ou a vida, ou, ainda, o princípio da morte, forneceu mais uns capítulos para o centroavante Heleno: desabou física e mentalmente, foi internado num sanatório já com sífilis avançada, morreu esquecido, pobre, pior que um farrapo. Quando faleceu, Heleno sequer sabia que o Brasil havia sido campeão do mundo, na Suécia, em 1958. E pelos pés daquele que herdaria a coroa que o botafoguense, por pouco, não ostentou na cabeça: Pelé.

Também mineiro, o pequeno Edson não teve berço de ouro nem estudou nas melhores escolas. Se conheceu Heleno, foi pelas transmissões dos jogos via rádio. Soube desde cedo que vida de boleiro é curta nos gramados. Tratou de aproveitar todas as chances, se consagrou, parou e jogar e continua uma grande estrela; arrasta multidões e admiradores por onde passa e sua palavra tem influência dentro e fora de campo, quase quatro décadas após pendurar as chuteiras.

Fora o fato de que defenderam grandes clubes brasileiros e de que ambos vestiram uniformes alvinegros (Pelé jogou 90% de sua carreira com a camisa do Santos Futebol Clube), até no registro da trajetória dos craques há as faces da derrota e da glória. Mesmo sendo o jogador mais fotografado de sua época, Heleno não aparece em mais que centenas de fotos e só agora, mais de 50 anos após sua morte, um livro e um filme contam suas desventuras.

O livro é por demais insosso, ofusca lances primordiais de grandes partidas e parece ter sido escrito por um professor de física quântica que jamais parou para assistir um 11 contra 11. Tenho a impressão é que o camarada até hoje está na dúvida se a bola de futebol é redonda, quadrada ou, quem sabe, oca. Em certas passagens, vislumbro não a imagem de um boleiro, mas a sombra de um trágico cantor de tangos com meiões, chuteiras....e um copo de uísque.

Faltam alguns anos luz pro "biógrafo" chegar aos pés de um Ruy Castro que, mesmo hiperbólico, metafórico e passional, cometeu o grande "Estrela Solitária", um retrato comovente de outro mito botafoguense: Mané Garrincha. A escrita é morna, não tem paixão e livro sobre jogador de futebol, escrito por quem não gosta do "bola-no-pé", não é livro que se dê o respeito.

Quanto ao filme, bem que tentei nele enxergar algum link com a arte futebolística. Mas ali só encontrei o personagem do ator Rodrigo Santoro "calibrado" de éter e metido em noitadas ao invés de um craque de futebol, justamente o que deu fama a Heleno de Freitas. São poucas as cenas em que ele aparece com aquela postura de boleiro que come grama e enfia o queixo no bico da chuteira. Filmaram tudo em preto e branco e com partidas realizadas à noite, debaixo de chuva artificial, e em câmera lenta, para tentar tornar o retrato em algo poético. Fracassaram.

Cláudio Adão, um dos grandes centroavantes brasileiros de todos os tempos, treinou o ator para as cenas de futebol e diz que, quando começaram os trabalhos, Santoro estava tão perna-de-pau que parecia dar "canelada em tijolo". Tá certo, tem o lado promíscuo e anti-heróico do personagem, mas se a intenção era mostrar a glória e decadência de um jogador de futebol, o que não se vê no filme é justamente o "molho": futebol. Credibilidade, então, para se interpretar um goleador, é coisa de outro mundo. Gol contra! 

Por outro lado, Pelé é personagem de milhões de reportagens, documentários, teses de mestrado e doutorado e o filme de sua vida ainda está acontecendo, ao vivo e a cores, diariamente, nas telas da globalização. O cara caminha pros 72 anos de idade, e faz parte do comitê organizador da Copa de 2014. Qual a receita desse sucesso inacabável? “Juízo”, diriam alguns; “sorte”, alegariam outros.

Apesar de todas as ressalvas, no placar eletrônico da mitologia do futebol, contudo, ainda acredito, sinceramente, que não há perdedores quando se fala em Heleno e Pelé. Um quase foi rei, o outro é discípulo de um quase rei jamais destronado...

Sérgio Augusto
Editor da  www.academiadapalavra.blogspot.com 
Fotos Divulgação 

terça-feira, 24 de abril de 2012

Cine Olympia: 100 anos de emoção e magia na telona



É hoje que o Cine Olympia, aqui em Belém do Pará, completa 100 anos. É considerado por muitos como a sala de projeção mais antiga, ainda em atividade, na América Latina, e um dos mais antigos do mundo. É da era do "cinema de rua", quando os cinemas eram projetados e construídos para se assistir filmes. Hoje a maioria das salas de projeção está dentro dos shopping centers.

Bom, mas aproveito o dia pra postar uma matéria que escrevi alguns anos atrás para o projeto Orgulho do Pará, do DIÁRIO DO PARÁ, e que me ajudou a compreender a dimensão desse monumento da cultura paraense, amazônida e brasileira. É minha homenagem, junto com um clip e uma canção que resumem boa parte da Sétima Arte. Parabéns Cine Olympia.




 
Sérgio Augusto

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Acerto de contas com o passado da nostalgia

Logo no primeiro Woody Allen que assisti notei que ali patinava, entre a realidade e o sonho, um cineasta perdido na nostalgia e, ao mesmo tempo, um humorista que fugia do rótulo de discípulo de Harold Loyd. O segundo Allen me deu uma certeza: o cara queria mesmo era permitir um olhar diferente sobre as coisas que não fez e, voltando a um passado talvez fictício, acertar as contas com os acidentes da vida.

"A Rosa Púrpura do Cairo" foi o primeiro e "A Era do Rádio" o segundo momento em que encontrei algumas respostas satíricas para o humor de um certo judeu novaorquino que parecia incapaz de viver longe de Manhatan e da Bigapple, mas que já batendo nos 80 anos, parece ainda perdido em seu mundo pós-contemporâneo.

Pelo menos é essa minha percepção após assistir um dos mais recentes filmes do cara: "Meia-noite em Paris". De novo a viagem ao passado, o artista incompreendido, o consumismo político-conservador, as estátuas de mármore em que se erguem os velhos chavões cinematográficos e o final feliz. É essa mesmo o sequência. Já tava tudo em "A Rosa Púrpura..." quando a personagem de Mia Farrow foge da realidade diante das telonas e lá um dia o herói salta da tela pra mudar a vida dela. Aqui Jeff Daniels bem que tentou fugir da canastrice mas, pro bem da personagem que ele intrepretava, foi melhor mesmo aliviar pra linha lateral e de bico, senão perdia a bola e ia pro banco de reservas mais cedo.

Mas voltando à "Cidade Luz", a Paris de Allen é descrita em imagens que parecem um documentário em película. Nada contra a paisagem e seus cartões postais sem metafísica (que aqui não é bastante e pensa, e muito), mas aqueles ângulos já foram explorados à exaustão e isso desde que Chabrol, Truffaut e Godard ainda escreviam pra Cahiers du Cinéma e sonhavam o que seria o Nouvelle Vague e seus retumbantes dramas cauterizados do pós-guerra europeu. (Tá, pula essa sequência e vamos logo pro que interessa).

O que conta aqui é a volta ao passado, já que o presente é dominado pela tal da globalização, o politicamente correto e o "mais do mesmo" quase sempre mais do não mesmo. Lá pelas tantas o protagonista cansa da vidinha de roteirista rico e famoso que leva em Hollywood, com a noiva fútil e sua família conservadora, e decide ir pra Paris atrás do sonho de ser um escritor cuja vida se confunda com a arte, tal qual fizeram Ernest Hemingway, Scott e Zelda Fitzgerald, Gertrude Stein e mais uma dúzia de artistas contemporâneos dessa trupe, incluindo Salvador Dalí, Pablo Picasso e Luis Buñuel.

Numa noite de tédio, o cara vai parar numa esquina parisiense, dá meia-noite, ele entra numa carruagem e faz uma espécie de volta no tempo não vivido (tá aqui Woody Allen e seu sonho jamais realizado). Ele vai bater na Paris da década de 1920 e lá encontra e convive com os nomes citados lá em cima. Até aí, é só Allen se debatendo pra realizar seu projeto mais ambicioso desde "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa".

Mas peraí, parô, parô. Até aqui só esculhambei geral, mas a parada tem suas virtudes. Aliás, tem uma virtude apenas: uma crítica mordaz à não valorização do presente. Já notou como o cara aos 50, 60 anos sempre diz que "há 40 anos tudo era melhor"? Pois o avô dele, 40 anos antes, também dizia: "há 50 anos tudo era melhor" e daqui há 60 anos vai ter neguinho dizendo: "em 2012 o mundo era outro". Quem tem razão? Talvez o talvez!

Digo isso porque o protagonista do filme convive com toda essa turma de mitos e se deslumbra por isso, mas quem viveu a década de 1920, em Paris, topava com Picassos, Dalís e Buñuels, pelas esquinas, trocava insultos e sopapos com Hemingway nos botecos esfumaçados, discutia literatura e política com Zelda e Scott Fitzgerald, nos elegantes cafés, e achava tudo muito natural. Como hoje a gente só encontra essa trupe nos livros, documentários, museus, galerias de arte e páginas na internet, os mitos se multiplicam e tem quem ainda pergunte: "esses caras existiram ou são também ficção de si mesmos?". Resposta: só Bill Gates sabe!

Ah, antes que eu me esqueça até o velho Bill vale umas palavras de respeito. Mas antes disso, lembro de outra personagem de "Meia-noite em Paris": é uma estudante de moda que se envolve com o protagonista e, só pra variar, vive na Paris dos anos 20 e acha aquilo um tédio. Numa viagem dentro da viagem, ela vai pra Paris de 1800 e dinossauro, se deslumbra com a Belle Époque e diz que quer ficar por ali mesmo, que se achou no tempo-espaço. Só que lá, ela e o protagonista encontram outros tipos também insatisfeitos com o presente e que dizem que o supra sumo da humanidade estaria na Renascença. (E agora, mermão? Insatisfação geral com o presente, o passado e o passado do passado? Que que eu faço?)

Se estamos em 2012 e tem quem ache que a década de 1920 seria a ideal, então é certeza absoluta que daqui há 100 anos vai ter gente dizendo: "puxa, como eu queria ter vivido em 1990, 1995, quando a internet tornou-se comercial e revolucionou as comunicações e relações humanas" ou "como seria bom ter sido contemporâneo de Bill Gates, o cara do Windows e da Microsoft, com Steve Jobs, o gênio da Apple, do Macintosh, de Orkut Büyükkökten e a rede social que criou e também de Mark Zuckerberg, garoto-prodígio que inventou o Facebook".

Sentiu a pressão, mermão? É isso aí: somos contemporâneos de uns caras que também mudaram e ainda ajudam a mudar, a cada dia, esse globo girante que a gente habita e não percebemos isso. Saber pelo noticiário que a fortuna de Bill Gates já se aproxima do trilhão de dólares ou que "A Rede Social" (que considero um filme estapafúrdio de tão fraco) ganhou o Oscar Hollywoodiano é tão descartável quanto deletar spams ou bloquear vírus que roubam senhas. É o que os sabichões tão poeticamente chamam de "descartabilidade". Mas, traduzindo em miúdos, até o Paulo Miklos já cantou a bola em um de seus discos: "Vou Ser Feliz e Já Volto". (Eu não queria, mas sou obrigado a dar o veredicto: SÓ PRENDENDO!)

Câmbio, desligo

Foto: Divulgação

Sérgio Augusto
Editor da Academia da Palavra

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Pelé teria sido o que sempre será


Entre o "teria sido" e o "para sempre haverá" vai uma boa distância. Digo isso depois que assisti (pela trilionésima vez) um festival de gols da seleção na Copa de 70, no México. Especialmente os gols que o Pelé não fez me chamaram a atenção. Cara, imagina o que teria sido do futebol se aquele "drible da vaca" que ele deu no Mazukiewicz, goleiro do Uruguai, tivesse acabado no fundo das redes? E a bomba lá do meio de campo, que fez o goleiro Viktor, da então Tchecoslováquia, voltar pra baliza feito uma barata tonta, torcendo como doido pra bola mudar de rumo? A mandinga (???) do agnóstico Viktor, infelizmente, deu certo.

E aquela cabeçada contra a Inglaterra, que fez o Gordon Banks voltar, não se sabe de que planeta, pra defender de fora pra dentro, e evitar o gol do Rei? Teriam sido, sem dúvidas, golaços históricos, mas justamente por não terem sido é que ficou o mito e os sonhos que metade do mundo já construiu sobre eles.

Mas deixemos de lado os entretantos e vamos correr nos finalmentes (Odorico Paraguaçú, segura tua onda aê, rapá!). O Pelé é um superstar, adorado por muitos, criticado por outros, mas jamais ignorado por todos. Dentro de campo foi, e ainda é o maior. Parou de jogar e virou um "jetsetter" e uma lenda viva, bem articulado e, de vez em quando polêmico. Mas o que seria da vida não fosse a polêmica pra bagunçar o coreto?

Falando em bagunçar geral, lembro de outro lance daquela Copa de 70, também contra o Uruguai. É quando o zagueiro pisa no Pelé, dentro da área, e o juiz finge que não vê. Na jogada seguinte, bola na linha lateral, quase na linha de fundo, e lá vem o cavalo uruguaio de novo, pra quebrar o 10. O Rei dá uma olhadela, tem a certeza que o juiz tá longe, arma o braço direito e, num golpe de mestre, arrebenta o maxilar do uruguaio com uma cotovelada linda, poética, arrasa-quarteirão. Sofisticado como ele só, ainda se embola com a vítima e rolam os dois pelo gramado. Pelé expulso? Claro que não. A besta do juiz ainda dá falta contra o Uruguai. KKKKK

E se o Pelé tivesse se intimidado? O uruguaio ia quebrar a perna dele e adeus futebol. Já pensaram? O Rei parar de jogar no auge da majestade por causa de um beque medíocre e violento? O mesmo se aplica às especulações e mitos que muito se cria em cima do "quase", do "poderia ser" e mesmo do "talvez". Há quem diga que o ser humano faz os mitos e deles se alimenta. Ô raça esquisita....

E que tal deixar de lado os entretantos do "haveria de ser" e chutar logo na direção do "tá valendo"? Nada melhor que matar a parada de uma vez e ainda ficar com o troco do "já foi", valeu? Nisso o próprio Pelé foi mestre. Naquele mesmo jogo contra Tchecoslováquia, ele desequilibou a partida com uma das maiores criações da metafísica universal. Não só da metafísica, eu diria até que da aerodinâmica.

Gerson pega a bola na intermediária do adversário, enxerga o Pelé dentro da área e faz o passe redondo, milimétrico. Como no futebol, assim como na vida, não há perfeição, o lançamento tem endereço certo, mas o 10 não tá sozinho; tá cercado de zagueiros tchecos e tem que deles se livrar o quanto antes.

A bola vem decaindo e o cara toma três decisões imprevisíveis, numa fração de segundos. Primeiro: o mais indicado seria cabecear; a bola vem pronta pro arremate e é só testar e correr pro abraço. Pois ele salta e mata a bola no peito. Nessa decisão tomada, o sistema defensivo tcheco desaba. Se fosse mesmo cabecear, como mandam as leis da física, daria tempo do adversário chegar junto e abafar a jogada pra escanteio.

Segundo passo: matada a bola no peito, é hora de dar um "chega pra lá" nos adversários que restaram na parada. De novo, a surpresa: assim que pousar no chão, os zagueiros tchecos vão correr em cima como que acordados de um letárgico "rigor mortis", que durou poucos segundos. Então Pelé deixa a bola quicar no chão.

Não perde o raciocínio, fera: quicou no chão a bola, observa como o último dos adversários, ainda na "cola" do mestre, se dá por vencido e deixa pra lá. Saca só como ele para e age, resignado, como quem diz: "seja o que Deus quiser". Mas a jogada ainda não foi liquidada. Falta o ending com chave de ouro e diamantes.

Falta o goleiro Viktor, que tá bem posicionado embaixo das traves. O Pelé com toda a certeza vai mandar a bomba de canhota. Eis que vem a terceira e última das supresas nesse golpe de mestre: o cara troca de perna e manda de direita, colocado, na veia, no ângulo, e metade do mundo deixa o queixo cair, para, e em seguida aplaude a obra de arte.

Uma jogada com todos os ingredientes do gênio, do craque, do "teria sido", que, em segundos, se torna o "está sendo" e "para sempre será". Mais que qualquer palavra ou frase de efeito, fico com esse lance do Pelé. Está aí a síntese e o acaso, o que parecia impossível e o resultado prático, o "nunca" transformado em "sempre" e que "para sempre" ficou.

Câmbio, desligo

Sérgio Augusto

Editor da Academia da Palavra

sexta-feira, 29 de julho de 2011

"Zezinho" e a capacidade de rir de si mesmo


Jô Soares pode ser considerado tudo (egocêntrico, exibido, chato) pelos críticos de plantão, entretanto uma coisa não se pode ignorar: o artista é um dos poucos humoristas que nasceu com uma virtude rara entre os seres humanos: a capacidade de rir de si mesmos, a mesma usada por gênios como Charlie Chaplin, Buster Keaton, Cantinflas, Federico Fellini, Orson Welles e Woody Allen, só pra citar alguns dos grandes dos últimos 100 anos, para dizerem o óbvio, quase sempre ululante: o homem é geneticamente alegre, até que se prove o contrário e o riso liberta. Essa é sensação que tenho cada vez que assisto as reprises, promovidas pelo Canal Viva, das peripécias do camarada na TV Globo nos anos de 1980, e, em especial, aquele que considero o melhor dentre seus mais de 200 personagens: o "Zezinho".

Sabe aquele cara bonachão, paulistão, com um bonezinho na cabeça, a latinha de cerveja na mão esquerda e o controle remoto na direita e que vivia ameaçando o "gôido" Jô com um "crique" (clique no controle remoto para desligar a TV) cada vez que o humorista se despedia ao final de cada programa? Aí o Jô (invariavelmente vestido com ternos dourados ou prateados) parava tudo e começava a discutir com aquele telespectador ranzinza e abusado, que vivia cobrando, esperneando e reclamando por um "stripitrise" que nunca acontecia.

Lembrou, né? Ali estava, ao mesmo tempo, uma homenagem à criança que na verdade o Jô nunca deixou de ser, uma resposta a todas as críticas que certamente ele ouvia por causa do programa "Viva o gordo" e, pra completar, uma autocrítica rasgada ao seu talento indiscutível, seja como ator, humorista, escritor, artista plástico, músico e tantas outras atividades a que o "gôido" até hoje se dedica.

Homenagem porque o próprio nome do personagem, "Zezinho", era como o pai o chamava na infância, já que o nome de batismo do Jô é José Eugênio Soares. Daí já começa a piada do cara consigo mesmo e com os próprios telespectadores. Quando tinha o humorístico na TV, Jô criou tipos impagáveis, como o "Décio" (aquele que agarrava a mulherada nos salões da alta sociedade e, quando o marido questionava, ele começava a contar as loucuras que já havia feito com a respeitável senhora ao som do "não se deprecie mulherrrrrrr"), o governador "Meu nome é trabalho" (sátira em cima do então governador carioca Moreira Franco) e o contra-regra piloto (aquele do "ihhhhh, falha nossa"). Mas o "Zezinho" era a despedida do programa e, quando ele aparecia, era a senha para a criançada desligar a TV e ir dormir.

Se ainda hoje, com um talk-show que copia descaradamente os similares norte-americanos, como o do David Letterman, Jô é alvo de críticas pesadas, imagine o que os "intelectuais" de época não falavam dele. Interessante é que o cara tinha mais quilometragem em leituras, filmes, musicais e debates artísticos do que metade de seus críticos juntos, mas nem por isso deixava de pagar o maior mico com um humor feito para agradar o brasileiro de qualquer idade e nível de escolaridade. Talvez essa capacidade de se comunicar com tantos ao mesmo tempo provocasse a ira dos "sabe-tudo", que parecem brotar como cogumelos após a chuva só pra testar a paciência dos caras verdadeiramente talentosos.

Cada vez que o "Zezinho" mandava um "Ô gôido, mas tu é muito sem graça rapá" e o Jô respondia: "Você é grosso mesmo" e o "Zezinho" treplicava: "E tu acha que tu é fino, sendo gôido desse jeito?", era como se o humorista mandasse recados cifrados aos fãs, aos não fãs e a si mesmo, exercitando, a um só tempo, a capacidade de diálogo fácil com todos os públicos. E mais: cada troca de farpas com o "Zezinho" era uma catarse, talvez um canal para acertar as contas com alguma aresta lá do subconsciente. Taí a manha do grande artista: rir de si mesmo pra remover rugas internas e, ao mesmo tempo, divertir o resto do mundo.

Mas o melhor mesmo era quando o Jô dizia: "Já sei, já sei. Quando você Zezinho reclama tanto e diz que o programa não presta é porque tá querendo o streap tease". Aí o personagem começava a saltar na poltrona, a modelo começava a tirar as luvas e, quando a coisa começava a esquentar, o Jô parava tudo por algum motivo fútil e deixava o seu alter ego no desespero, já às portas de um ataque, porque o "striptrise" mais uma vez não aconteceu.

Charlie Chaplin, por cerca de quatro décadas, entre os curtas-metragens do começo do século XX e o longa "O grande ditador", de 1939, usou e abusou da veia cômica, do exorcizar os traumas da infância e da capacidade de fazer rir e chorar a bordo do "Carlitos". Woody Allen é mais caústico e contemporâneo, sendo que nos últimos 40 anos repetiu o personagem cheio de neuras, ansioso, histérico, incompreendido, que se enche de calmantes e estimulantes em grandes filmes como "Manhattan", "Noivo neurótico, noiva nervosa" e "Zelig".

O "Carlitos", o "Zezinho" e o "Zelig" são parte de um mesmo personagem, usado pelos três humoristas para expressar as inquietudes e percepções de seus criadores em momentos distintos do século XX. Uma coisa é certa: os caras criaram, deram vida e divertiram milhões de pessoas pelo mundo com uma peculiaridade única, chamada fina ironia. E o "Zezinho", melhor que tudo, com um tempero bem brasileiro.

Câmbio, desligo!

Sérgio Augusto

Editor da Academia da Palavra

domingo, 24 de julho de 2011

A maldição dos 27 (?)

Amy Winehouse se foi e, desde que foi divulgada a notícia da morte da cantora inglesa, no último sábado (23/07/2011) os sites, blogs, jornais, revistas, emissoras de rádio e TV se apressaram em colocar "no ar" especiais, entrevistas, homenagens e demais parafernálias já previsíveis para esse tipo de ocasião. E pra variar, de uma hora pra outra, (quase) todo mundo se tornou fã incondicional e passou a "reverenciar" a grande artista que, sem dúvidas, ela foi. Grande no sentido de ser diferenciada em relação a outros "ídolos" que a cada dia a mídia cria e mata, sem se preocupar em jogar os vestígios para baixo do tapete.

Winehouse também foi um produto fabricado. Basta comparar o som que ela fazia no primeiro disco, "Frank", com o que se ouviu no segundo trabalho em estúdio, "Back to black". Dos vocais, aos ritmos, passando pelas fotos que aparecem nas capas e todo o conceito dos arranjos dá pra perceber que algum "engenheiro" passou pela vida dela, percebeu que ela tinha um pé no jazz retrô de 40, 50 anos atrás, e o outro na capacidade autodestrutiva.

Confesso que quando ouvi Amy pela primeira vez identifiquei nela laivos de Billie Holyday, em "At Last", e de Anita O´Day, em "Sweet Georgia Brown". Guardadas as devidas proporções, Amy poderia ter se tornado uma diva caso sobrevivesse aos primeiros anos da pressão dos fãs, tablóides, gravadoras e outros personagens que ajudam a destruir o artista e construir o mito em quem investem seus sonhos, frustrações e desejos. É aquela famosa curiosidade mórbida de ter prazer em ver o artista no fio da navalha, na beira do abismo, a caminho do que Robert Plant tão poeticamente canta como as "Starway to heaven".

Produto fabricado ela foi, mas ao menos foi fiel ao "Viva intensamente e morra jovem", tantas vezes cantado e levado às últimas consequências pelos astros do rock. Sendo filho do diabo, como também dizem ser o blues, o rock é uma estrada de excessos que cobra um pedágio caro, na maioria das vezes a vida de seus filhos. Foi fiel por amar a música e os palcos e se recusar a fazer o jogo dos tablóides, dos holofotes, das falsas aparências. Desse confronto entre o aqui e agora e o amanhã incerto, sobrou o ser humano sensível, frágil, viciado em álcool e drogas e incapaz de suportar as agruras e falsidades do mundo globalizado.

Amy foi original, mesmo com aquele personagem que tentaram impor sobre a grande cantora. Aquelas perucas, aquela maquiagem pesada, aqueles vestidos, pareciam ser obra de algum marqueteiro que farejou, antes de todo mundo, uma mina de ouro naquela voz firme e rasgada, nascida junto com todas as grandes do blues e do jazz. Por um tempo o cara faturou, só não esperava que a "festa" acabaria tão cedo. Tirando o personagem tosco que nela tentaram impor o que sobra? Um diamante ainda em processo de lapidação, mas já com brilho único e visceral.

Me refiro à máscara quando lembro de nomes como Lady Gaga, Beyoncé, Rihanna, Britney Spears e, no Brasil, Restart e Maria Gadú. Tirando a pirotecnia, os (d) efeitos especiais, os bilhões gastos em marketing e os golpes publicitários para se promoverem a qualquer custo na mídia, o que sobra para esses "artistas" estrangeiros? Resposta: a ilusão, o vazio e o nada.

Quanto aos nacionais, experimente botar os 4 "restarts" num palco sem aquelas roupas coloridas, aqueles óculos sem lentes e sem aquelas caretas que costumam fazer para fotos e me digam o que acontece. Alguém aí consegue lembrar de um único "sucesso" e cantarolar uma frase dos caras? Deixa pra lá, perda de tempo e raciocínio. E a Gadú? Coloquem ela sem aquele visual "muderno" num palco pra ver o que acontece. Só mesmo o Caetano, batendo nos 70, pra cantar a tal da "Shimbalaêi" (É assim que se escreve?) e dizer que é "linda".

Mas dei toda essa volta porque, quando tive a idéia de escrever essse post, milhares de "críticos musicais" pularam na frente a citaram a tal da "maldição dos 27" que é, segundo os "especialistas", a idade fatal para os verdadeiros e grandes artistas. Até agora já citaram Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Kurt Cobain e agora Amy Winehouse.

Pois aproveito pra acrescentar Brian Jones (gênio da guitarra e fundador dos Rolling Stones) e Jean-Michel Basquiat que, apesar do nome francês, era norte-americano e um dos grandes artistas plásticos dos últimos 50 anos. Basquiat não era músico, mas as telas que pintou "cantam" e, só de olhar, dá pra "ouvir" os riffs que cada um dos quadros transmite. Pois bem, a tríade sexo, drogas e rock´n´roll levou também esses dois aos 27 anos e o mito sobre os dois algarismos ganhou mais dois nomes de peso.

Se há alguma relação, ou "maldição", como queiram, entre as mortes dos ídolos e a idade em que se foram, isso já é mais um produto criado pelo fanatismo. Mas que bate aquela curiosidade em saber como a turma que passa dos 27 e chega aos 67, como é o caso de Mick Jagger (que já tem 68) e Keitih Richards, ou aos 87, como chegou Anita O`Day, ah, isso bate. Nesses três casos, a bola bateu na trave milhares de vezes e só não estufou as redes porque não quis. As da Amy, para o bem ou para o mal, já foram estufadas e bem mais cedo.

Câmbio, desligo.

Sérgio Augusto

Editor da Academia da Palavra

Foto: divulgação

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Exposição sobre Miles Davis, o "filósofo do jazz", chega ao Brasil em outubro

"Um ano depois que eu nasci, um furacão passou por St. Louis. Talvez ele tenha deixado um pouco de sua criatividade indomável em mim, um pouco da força de seu vento", escreveu Miles Dewey Davis III em sua autobiografia de1989.

O raciocínio supersticioso é o modo mais simples de descrever a força criativa de um trompetista que, durante 40 anos, passou diversas vezes como um Katrina pelo status quo do jazz, redefinindo conceitos de ritmo, harmonia, sonoridade e interação na música, além de deixar em seu rastro uma aura indecifrável, tão misteriosa quanto elegante.

Todas as fases do homem, do bebop ao fusion, formam a exposição Queremos Miles, concebida pelo instituto musical Cité de la Musique, em Paris, com data de estreia marcada para o início de agosto no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, e outubro em São Paulo. Dividida em oito partes, que seguem a trajetória do trompetista desde sua infância, no Missouri, ao estrelato, Queremos Miles busca apresentar o trompetista para os leigos e ilustrá-lo para os fãs.

"Desde os anos 50, Miles tem uma base de fãs muito grande na França", explica o curador da exposição Vincent Bessières, que teve ajuda da família do músico para montar a mostra. "Mas o Cité de la Musique é um lugar didático, aberto para todos, não somente os fãs. Então me esforcei para que a pessoa que não conhecesse sua obra pudesse, em uma ou duas horas de exposição, ser iniciada", completa.

Seis das oito partes da mostra são feitas por casulos construídos na forma de uma surdina de trompete, que contém arquivos e música de todas as fases de Miles - entre elas, a fase inicial, quando, aos 18 anos, ele chegou em Nova York e se apresentou a Charlie Parker como seu novo colaborador, tendo a oportunidade de desenvolver sua música, no palco, ao lado de Bird e Dizzie Gillespie; o início do cool jazz, sua luta contra o vício em heroína e seu quinteto com o fabuloso Red Garland, nos anos 50; o icônico disco Kind of Blue; suas colaborações orquestrais com o arranjador Gil Evans; seu quinteto com Wayne Shorter; o parto do fusion, na fase Bitches Brew e o desenvolvimento do gênero nos anos 80.

"A música de Miles mudou bastante durante sua vida. Sua obra é um pouco como a de Picasso: ele não toca no final como tocava no início. Portanto, a exposição é estruturada de um modo em que o visitante possa ter a experiência audiovisual de todos esses períodos no local", conta Bessières.

A exposição tem o foco tanto na música quanto na memorabilia de Miles. Estarão presentes sete de seus trompetes, diversos documentos de sessões em gravadoras, e instrumentos como o sax que John Coltrane tocou em Kind of Blue, o baixo em que Marcus Miller gravou Tutu, as baterias de Tony Williams e Al Foster. Um acervo de fotos com todos os belíssimos registros da gravação de Kind of Blue também faz parte da exposição. Para agradar os fãs assíduos, Bessières conseguiu partituras, diversos arranjos de Gil Evans, o flugelhorn em que Miles tocou Sketches of Spain.

A fase inicial traz pinturas de Jean Michel Basquiat, de quem Miles foi amigo nos anos 80. As obras retratam o fascínio do pintor americano pelo época em que a rua 52 de Manhattan fervia com os solos de Charlie Parker, Dizzie Gillespie e Thelonious Monk, entre outros. A mostra também traz quadros de Miles, que se aventurou pela pintura no período, entre os anos 70 e 80, em que ficou sem tocar e gravar, assim com algumas das próprias capas ilustradas pelo músico. Mas, de acordo com Bessières, a exposição também vasculha outras facetas do músico.

Um dos filmes que deve ser um deleite para os aficionados mostra Miles fazendo um treinamento de boxe. Embora não lutasse por causa de seus lábios (um corte na boca pode significar aposentadoria para um trompetista), ele treinava sozinho. Um de seus discos dos anos 70, A Tribute to Jack Johnson, é uma trilha sonora para o filme sobre o grande boxeador negro.

A moda de Miles estará presente com algumas de suas jaquetas mais memoráveis. O filme Ascensor para o Cadafalso, de Louis Malle, cuja trilha foi feita por Miles enquanto viveu em Paris será mostrado, e uma seção com as mulheres de Miles retrata as beldades negras que figuraram em suas capas.


Fonte: Roberto Nascimento/Estadão

Foto: Divulgação

terça-feira, 19 de julho de 2011

Ganso e Neymar chegaram a constar entre os 30 em lista para a Copa de 2010, admite Jorginho

Atualmente desempregado após pouco mais de dois meses no Goiás, o técnico Jorginho participou da abertura da Soccerex, neste sábado, na praia de Copacabana. Sem receio de falar de sua passagem pela Seleção Brasileira e a eliminação precoce na Copa do Mundo da África do Sul, o ex-jogador relembrou os momentos difíceis que passou ao lado de Dunga após a derrota para a Holanda, em Porto Elizabeth, nas quartas de final do torneio.

No bate-papo, o treinador, que na época era auxiliar da Seleção, admitiu que a comissão técnica poderia ter levado Paulo Henrique Ganso, do Santos, e Carlos Eduardo, hoje no Rubin Kazan, da Rússia, para o Mundial. Segundo ele, em nenhum momento foi cobrada pela CBF da comissão técnica uma renovação do time canarinho. Segundo Jorginho, a equipe foi montada para vencer a Copa do Mundo de 2010 e não para o Mundial de 2014.

Confira os principais trechos da entrevista com Jorginho:

GLOBOESPORTE.COM: Você se arrepende de alguma situação que tenha ocorrido na Seleção?

JORGINHO: Procuramos fazer tudo muito bem planejado. Se você não ganhar, começa a surgir um monte de problemas. Tudo o que fizemos foi pela Seleção. Ninguém sente a derrota mais do que a gente. Vai doer para o resto da vida. A coisa que atrapalhou e se agravou antes da Copa do Mundo foi a relação com a imprensa. Não foi nada planejado e foi acontecendo. Tiveram erros de ambas as partes e essa é uma situação que precisamos repensar daqui para frente.

Poderiam ter chamado outros jogadores?

J: Fizemos a convocação com muito critério. Não foi nada feito em cima da hora. Tínhamos uma convicação. As pessoas poderiam discordar de dois nomes. O Dunga teve a convicção de só chamar atletas que tinham passado pela nossa equipe. O Neymar até foi cogitado, mas achávamos que era muito cedo para ele. Já o Ganso e o Carlos Eduardo, não. Colocamos os dois na lista dos 30 nomes que foram entregues à Fifa, mas eles não foram à Copa.

Foi pedida uma renovação na Seleção que foi à Copa de 2010?

J: Muitas coisas foram faladas em cima do resultado, mas sabemos que as críticas são levadas pela emoção, pelo momento. Em nenhum momento nos foi pedido para montarmos uma Seleção para a copa do Mundo de 2014. Tínhamos um outro pensamento e a confiança de que tudo daria certo.

Ficou chateado com tais afirmações?

J: Quando a Copa acabou e o Brasil foi eliminado é que falaram que o grupo tinha idade alta. Eu estava preparado para jogar e ganhar o Mundial de 2010, não para 2014. O Lucas, por exemplo, teve oportunidade nas Olimpíadas. Hoje, ele é um jogador que está preparado para a Seleção. O Thiago Silva a mesma coisa. Foi pedido comprometimento e foi isso que nós buscamos o tempo todo. Eu tenho um grande respeito pelo presidente (Ricardo Teixeira). Ele manteve a comissão técnica mesmo com a medalha de bronze nas Olimpíadas e alguns tropeços nas eliminatórias. Naquele momento ele poderia ter mudado tudo, mas foi homem e manteve todo mundo no cargo. O que foi pedido nós cumprimos à risca.

Os jogadores questionados deram a resposta que esperavam dentro de campo?

J: Todos os jogadores que nós convocamos nos deram resposta em algum momento. O Júlio Baptista era questionado, mas fez uma excelente Copa América. Todos achavam que o nosso time levaria um chocolate da Argentina na final da competição, mas foi o Brasil que deu o chocolate. Todos os jogadores que estiveram bem durante o trabalho foram convocados para a Copa.

Você tem falado sempre que questionado sobre o que ocorreu na Copa da África do Sul, mas o Dunga ainda não. Por que?

J: O Dunga está passando um momento difícil com o pai dele e creio que está focado nisso. A pressão em cima dele é muito maior do que em cima dos outros. O Dunga decidiu não fazer nada até o fim do ano. Eu não. Sou treinador, já assumi um clube e uma hora eu tinha que falar sobre a Copa. Muita gente não entende o Dunga, mas ele é uma excelente pessoa. Ano que vem ele vai retomar a carreira dele.

O Kaká chegou inteiro ao Mundial da África do Sul?

J: Antes da Copa, por conta do problema no púbis, ele não podia nem se mexer. Decidimos que levaríamos o Kaká para a Copa mesmo assim. Durante a competição, ele foi crescendo e fez a sua melhor partida contra a Holanda. Se ele faz aquele gol, ninguém falaria da condição do Kaká. Esse problema que ele teve após a Copa foi uma outra coisa. Tudo já foi explicado.


Fonte: Márcio Iannacca/G1

Foto: Globoesporte.com

sábado, 16 de julho de 2011

Jango, o personagem subestimado pela "direita" e pela "esquerda"


Fraco, medíocre, demagogo. Fujão, covarde, traidor. Direita e esquerda carimbaram vários adjetivos na imagem de João Goulart, o presidente deposto pelo golpe militar de 1964. Esquecido, quase sem lugar nos livros de história, Jango tem em torno de si silêncio. Jorge Ferreira, 54, professor de história do Brasil na Universidade Federal Fluminense, busca desinterditar a memória desse personagem com "João Goulart, uma Biografia". Nesta entrevista, ele fala do livro e diz que populismo não é um conceito teórico, mas uma desqualificação política. "Populista é sempre o outro, aquele de quem você não gosta", afirma.


Folha - Por que o sr. resolveu fazer esse livro?

Jorge Ferreira - Estudei Getulio Vargas e o trabalhismo, daí a curiosidade sobre João Goulart. Foram dez anos de trabalho. Creio que chegou o momento de retirar Jango do limbo da memória do país. Ele foi um personagem importante, mas as análises sobre ele não se distanciam das paixões políticas. Ora é definido como demagogo e incompetente, ora como vítima de um grande conluio de empresários brasileiros com o governo norte-americano. Quis conhecer o personagem para compreendê-lo, e não julgá-lo.

O que encontrou de novo?

O livro é um relato biográfico, enfocando sua vida política e privada. Evitei enfoques sensacionalistas. Talvez a maior novidade seja lembrar à sociedade brasileira que um dia Jango foi líder político de expressão. Como diz o historiador inglês Eric Hobsbawm, o papel do historiador é lembrar à sociedade o que aconteceu no passado. Foi o que eu fiz.

Quais foram as influências sobre Goulart?

Goulart, assim como Brizola, era jovem quando Vargas instituiu a ditadura. Ele entrou para a política no período democrático. Em 1945 e 1946, a democracia liberal tinha grande prestígio. As esquerdas e o trabalhismo associaram os ideais democráticos com o nacionalismo, o desenvolvimentismo, as leis sociais e o estatismo. Nos anos 1950, o Estado interventor na economia e nas relações entre patrões e empregados era um sucesso na Europa. Os trabalhistas observavam a experiência inglesa com o programa de estatizações e também o sucesso da industrialização soviética, com o Estado interventor e planejador da economia. Também culpavam os Estados Unidos pela pobreza da América Latina.

Por que há pouco dados sobre o empresariado em relação a Goulart e aos militares?

O golpe de 1964 não foi dado por empresários que usaram os militares. O golpe foi dado por militares com apoio empresarial. A Fiesp, em inícios de 1963, apoiou Goulart na efetivação do Plano Trienal. Ele teve apoio de setores conservadores, desde que estabilizasse a economia, controlasse a inflação e se distanciasse das esquerdas, sobretudo dos comunistas e dos grupos que apoiavam Brizola na Frente de Mobilização Popular. Os grandes empresários, os políticos conservadores e a imprensa se afastaram de Goulart e passaram a denunciar o "perigo comunista" no segundo semestre de 1963, quando a economia entrou em descontrole e Jango se aproximou das esquerdas. Com o comício de 13 de março de 1964, os golpistas crescem e se unificam. A revolta dos marinheiros foi a fagulha que faltava, desencadeando gravíssima crise militar. A crise do governo Goulart tem uma história. É preciso reconstituí-la, com documentos e provas, superando repetidos jargões.

No livro o sr. discute a questão do populismo. Por que populismo continua sendo um termo pejorativo?

Sou crítico em relação ao conceito de populismo. Populistas podem ser considerados Vargas e Lacerda, Juscelino e Hugo Chávez, Goulart e Collor, FHC e Lula. Personagens tão diferentes, com projetos díspares, com partidos políticos distintos são rotulados sob o mesmo conceito. Qualquer personagem político pode ser chamado de populista, basta não gostar dele. Populista é sempre o outro, o adversário, aquele de quem você não gosta. Não se trata de um conceito teórico, mas de uma desqualificação política. Eu prefiro nomear os personagens assim como eram chamados na época: Jango era trabalhista, Lacerda, udenista, e Prestes, comunista.

Qual é o maior legado de João Goulart?

O governo Goulart foi o auge do projeto trabalhista, que começou com as políticas públicas dos anos 1930, em época de autoritarismo. Mas que se democratizou, se modernizou e se esquerdizou a partir da segunda metade dos anos 1950. Seus elementos fundamentais foram o nacionalismo, o estatismo, o desenvolvimentismo, a intervenção do Estado na economia e nas relações entre patrões e assalariados, a manutenção e a ampliação dos benefícios sociais aos trabalhadores, a reforma agrária e a liderança política partidária de grande expressão. Creio que muitas dessas tradições inventadas pelos trabalhistas ainda estão presentes entre as esquerdas brasileiras.

Fonte: Eleonora de Lucena/Folha de S.Paulo

Foto: Divulgação