terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Distraídos são mais criativos que os compenetrados, diz estudo

Quem diria: se distrair pode ser a melhor maneira de resolver um problema difícil de forma criativa. "Distração" costumava ter uma conotação negativa em estudos médicos; por exemplo, pesquisas que mostram o maior risco de causar um acidente de carro ao se distrair falando ao celular. Mas trabalhos recentes têm demonstrado que a distração está vinculada à criatividade, especialmente na hora de resolver problemas complexos. Só que até certo ponto: em excesso, distração combina com esquizofrenia -um distúrbio psíquico que pode incluir alucinações, delírios e fuga da realidade.

Como a distração ajuda a ser criativo e produzir soluções? Para muita gente, a prática de "dar um tempo", "fazer uma pausa no trabalho", costuma fazer a resposta para um problema surgir de repente, como mágica. É só assistir ao seriado "House" (Universal) para entender como funciona. O médico Gregory House e sua equipe são escalados para diagnosticar e tratar apenas os casos mais cabeludos.

O enredo tem uma fórmula básica. Eles passam três quartos do programa raciocinando logicamente sobre sintomas, tratamentos e causas de doenças. Mas só no fim do episódio, quando House se distrai ou tem a atenção chamada para algo bizarro, que uma resposta "clica" no seu cérebro.

EVOLUÇÃO

Ignorar estímulos irrelevantes ao nosso redor é uma conquista da evolução biológica. Um animal que presta atenção a tudo e caminha pelos prados distraído acaba não percebendo o predador até que seja tarde demais. Essa capacidade de abstrair o ruído inútil é chamada de inibição latente. Esquizofrênicos têm inibição latente muito reduzida; prestam atenção a tudo, e por isso, paradoxalmente, fogem da realidade. Mas esse traço também caracteriza pessoas saudáveis e altamente criativas.

Um estudo feito pela equipe de Fredrik Ullén, do Instituto Karolinska, da Suécia, publicado na revista científica "PLoS One", apontou que os cérebros dos esquizofrênicos e o dos
criativos têm um sistema semelhante do neurotransmissor dopamina. Produzida em várias partes do cérebro, a dopamina tem funções na transmissão do impulso elétrico entre as células nervosas, notadamente na cognição, motivação e nos mecanismos de punição e recompensa.

"A teoria da dopamina e esquizofrenia vê o distúrbio como uma forma extrema de criatividade", diz Adam Galinsky, da Escola Kellogg de Administração da Universidade Northwestern, EUA. O pesquisador explica que a dopamina tende a alterar processos cognitivos, de modo que as associações são mais soltas e as categorias conceituais são ampliadas. "Isso pode facilitar a criatividade, mas também levar a padrões de pensamento desorganizados e anomalias de percepção."

Galinsky e colegas fizeram testes de associação com 94 voluntários que tinham que identificar uma quarta palavra vinculada a três outras. Alguns passavam por distrações, outros não. Os distraídos identificaram sequências de letras como palavras válidas mais rápido. O estudo foi publicado na revista "Psychological Science" e afirma que o processo de solução de problemas inclui tanto a distração quanto um período de pensamento consciente, sem o qual o problema não tem como ser racionalmente resolvido.

RADAR

Estudos feitos com universitários nos EUA e no Canadá pela equipe de Shelley H. Carson, do Departamento de Psicologia de Harvard, mostraram que aqueles que se distraem facilmente, com o "radar ligado" para tudo em torno, são mais criativos: os mais criativos tinham sete vezes menos inibição latente. O estudo original, publicado em 2003, foi replicado depois. "Dois outros laboratórios testaram a baixa inibição latente e descobriam que está associada com criatividade. Nós também estamos continuando os testes", afirma Carson.

"Há um corpo substancial de pesquisa que indica que a esquizofrenia está associada com inibição latente baixa e também com deficits na memória de trabalho", continua o pesquisador. Para Carson, comentando o estudo de Galinsky, a pessoa criativa é capaz de permitir, temporariamente, que o excesso de distrações seja canalizado em percepção consciente, para fazer conexões entre os estímulos. "Mas a pessoa tem a capacidade de alternar entre estados do cérebro para exercitar maior controle cognitivo e realmente formular e acessar essas conexões", afirma o pesquisador.

Fonte: Ricardo Bonalume Neto/ Folha de S.Paulo

Foto: Wallis Dress to Kill/ Divulgação

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Noel Rosa maior que Heitor Villa Lobos?

No traço elegante de Carlinhos Müller, Noel Rosa dialoga, no idioma do samba, com outro gênio da MPB, Lamartine Babo
Embora um tanto timidamente, o centenário de Noel Rosa (1910-1937) vem sendo lembrado em shows, CDs, seminários e livros --como "Noel Rosa - O Poeta do Samba e da Cidade" (Casa da Palavra), de André Diniz. Mas uma das homenagens mais interessantes ficou para 2011.Trata-se de um livro organizado por Júlio Diniz, coordenador do programa de pós-graduação em letras da PUC-Rio, com artigos de diversos pesquisadores sobre o impacto de Noel na formação da música popular brasileira.

Segundo Diniz, a ideia é mostrar que a influência do compositor teve reflexo em toda a produção musical subsequente, incluindo a bossa nova e as canções de Chico Buarque, Tom Jobim e Vinicius de Moraes. "Ele influenciou a música brasileira mais do que Villa-Lobos", diz. De acordo com o pesquisador, Noel é o protagonista de um movimento modernista carioca que divergiu do modernismo paulista, celebrado na Semana de Arte de 1922, e que, ao menos no âmbito musical, foi o que herança maior deixou ao país.

Diniz afirma que, enquanto os paulistas tinham um projeto para a música brasileira, que passava pelo resgate do cancioneiro popular e folclórico --e pela elevação deste através do conhecimento erudito--, os cariocas não tinham projeto, mas promoveram uma mistura muito mais horizontal do samba com a cultura burguesa.

MISTURA

"Noel foi o primeiro compositor branco e letrado a subir o morro para fazer músicas com parceiros negros. Mesmo sem estar a serviço de uma ideologia, ele inaugurou uma mistura que marcou a música brasileira daí em diante", diz. Carlos Didier, biógrafo de Noel ao lado de João Máximo, diz que ele teve 18 parceiros negros e mestiços, incluindo Ismael Silva, Cartola e Canuto.

Morto de tuberculose aos 26 anos, compôs 252 canções em oito anos de carreira e conseguiu transportar para as letras um amplo leque de temas que escapavam do tema único da malandragem. "Ele abordou assuntos como o telefone e o cinema falado, e sua produção é tão atual como a de Machado de Assis", afirma Diniz.

O pesquisador e compositor paulista Luiz Tatit concorda com a preponderância de Noel Rosa na construção da música popular brasileira. Segundo ele, Noel inaugurou a confiança no samba como uma linguagem autônoma, divergente da linha folclórica e da erudita, o que serviu de fundamento para a MPB. "Ele tinha orgulho de ser sambista, diferentemente de Ary Barroso, que, embora tenha feito sambas maravilhosos, tinha uma espécie de nostalgia de uma produção mais elevada", diz.


Fonte: Marcelo Bortoloti/ Folha de S.Paulo

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Saudações tricolores


E não é que o Fluminense conseguiu? Bicampeão brasileiro, comeu a bola, distribuiu belos lances de bola parada e em movimento e levou pras Laranjeiras o Brazuca 2010. Minha raiz é rubro-negra, mas não posso me esquivar de manifestar minhas saudações tricolores aos amigos e conhecidos "tantas vezes campeões".

Não é pelo simples fato de ser campeão; o que me orgulha nesse time do Fluminense é a garra. Cara, há anos que eu não via algo parecido no futebol. Há exatamente um ano, quando o meu Mengo levantava essa mesma taça (um suspiro melancólico acaba de escapar...), o Flu lutava desesperadamente pra se livrar da Segundona, lembram? Os frios números das estatísticas davam ao tricolor só 1% (ou menos) de chance de não ser rebaixado pra Série B desse ano. E depois de não sei quantas (parece que foram 10) vitórias seguidas e uma combinação muito doida de resultados, os caras das Laranjeiras fugiram da degola.

Méritos do Cuca, o ex-treinador, e de todo o time. Mas se tem alguém que merece todas as glórias desse momento supremo é aquele argentino pequenininho, o Darío Conca. Ô baixinho bom de bola! E não é de hoje. Desde a Libertadores de 2008 que Conca vinha se destacando. Foi preciso que o marrento do Muricy Ramalho assumisse o tricolor pro Conca ganhar espaço de verdade dentro do clube. Taí o resultado.

Bem, nada disso seria possível se o clube, finalmente, não levasse a sério o planejamento. Viram quanto os caras investiram esse ano? Além do salário milionário do Fred, foram buscar o Muricy, o Deco e o Washington (quanto dá isso mensalmente?) e uma penca de outros reforços. Fecharam o grupo num objetivo, superaram tudo quanto foi adversidade e levaram a taça. Nem tudo foram flores, é claro, mas o Flu merece. Valeu Fluzão

"Sou tricolor de coração; sou do clube tantas vezes campeão"

Sérgio Augusto
Editor da Academia da Palavra

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Cientistas radicalizam: papel-eletrônico será feito de...papel

Se você já ouviu falar dos e-readers – leitores eletrônicos de livros e jornais como o Kindle da Amazon – você sabe que a maioria deles utiliza um monitores de e-paper, ou papel-eletrônico, para exibir o texto, fotos e vídeos, mas o que é e-paper? O e-paper é um material que usa a técnica de electrowetting (sem tradução em português) que consiste em aplicar um campo elétrico em gotículas coloridas em um vidro, de modo a simular a sensação visual de letras (e fotos, etc.) impressas em papel.

O problema com o e-paper, como toda tecnologia atual, é que ele não é lá tão fácil de reciclar, além de ser apresentado em um meio sólido que – ainda – não pode ser dobrado e guardado com facilidade. Isso pelo menos até hoje. Andrew Steckl, professor de engenharia elétrica da Universidade de Cincinnati demonstrou que a técnica do electrowetting pode funcionar também em papel de verdade – desde que esse papel siga algumas técnicas de fabricação específicas.

“Um dos objetivos do e-paper é replicar o visual e a sensação de tinta no papel”, diz o professor. “Nós buscamos investigar o uso de papel como um substrato para os aparelhos que usam a técnica do electrowetting para conseguir papel-eletrônico em papel”. Essa tecnologia abre possibilidade para que você tenha um leitor eletrônico no mesmo formato – e textura e mobilidade – que uma folha de papel normal, que poderá ser dobrado e guardado no bolso, depois usado para ler o seu jornal preferido, por exemplo, além de baixar livros e ver vídeos. Tudo em uma única folha.

A outra vantagem do papel-eletrônico de papel é, claro, ambiental. Após algumas semanas de uso, uma folha de papel irá parecer naturalmente desgastada. Como estamos falando de papel de verdade, você poderá deixá-lo na lixeira de coleta seletiva mais próxima da sua casa, como você faz com qualquer papel normal hoje em dia – você recicla, não? Sem contar, claro, a redução brutal no uso de papel quando essa tecnologia atingir todo o seu potencial econômico.

Fonte: Leonardo Carvalho / MSN Notícias

Fotos: Divulgação

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Primeira geração nascida soropositiva ainda enfrenta estigma

"Me diziam que eu iria morrer desde que eu tinha 3 anos. Depois com 6, 8 e 10 anos", conta Tom Cosgrove calmamente. Atualmente com 20, ele é considerado a pessoa com HIV positivo que sobreviveu por mais tempo no Estado de Rhode Island, nos EUA. Mas cada ano tem sido uma luta.Quando ainda era pequeno e vivia em um abrigo para crianças infectadas pelo HIV, ele observou seus companheiros morrerem. Mais tarde, a Aids matou sua mãe e um irmão recém-nascido. Aos 8 anos, seu corpo rejeitou a medicação e ele ficou temporariamente incapacitado de andar.

Tom ficou revoltado, chegando até mesmo a atacar sua professora com uma cadeira. Os colegas de classe, por medo da doença, se recusavam a apertar sua mão ou sentar com ele para almoçar. Os pais dos amigos proibiam os filhos de visitá-lo e ele não podia participar dos times de basquete ou das aulas de karatê.Até hoje os medicamentos comprometem sua memória de curto prazo, tornando difícil os estudos e as perspectivas de trabalho. "Nós chamamos as drogas de idiotas", diz Barbara Cosgrove, que adotou Tom quando ele tinha 3 anos. "Mas sempre digo ao Tom: é melhor ser um idiota vivo."

Atualmente, a Aids é uma doença controlável nos Estados Unidos para muitos casos, mas Tom Cosgrove e outros como ele são prova do legado problemático e persistente da epidemia. Nascidos no início da década de 90, eles sobreviveram à primeira grande onda de pessoas com Aids, bebês que estavam praticamente destinados a morrer. Os avanços das drogas e um pouco de sorte permitiram que uma média de 10 mil crianças sobrevivesse. Hoje, apenas cerca de 200 crianças nascem com HIV por ano, graças ao tratamento vigilante com medicamentos para mulheres grávidas infectadas.

Entretanto, a vida dos primeiros bebês nascidos com HIV positivo, que agora são adolescentes e jovens adultos, não tem sido fácil. Suas experiências são consideradas tão significativas --não apenas nos Estados Unidos, mas no mundo todo, onde há milhões de bebês soropositivos-- que as agências de saúde iniciaram um amplo estudo para acompanhar estes jovens ao longo dos anos.

Alguns estão debilitados com a oscilação de sintomas que os primeiros medicamentos não conseguiram tratar. Outros apresentam atrasos de desenvolvimento e problemas relacionados à presença do vírus HIV na hora do nascimento. As medicações dadas a estes pacientes geralmente apresentam efeitos colaterais mais intensos do que aquelas tomadas por pessoas infectadas há menos tempo, pois as complicações da doença ou as drogas anteriores desenvolveram resistência, dificultando o tratamento.

Do ponto de vista emocional, eles hostilizam os pais que os infectaram, sentem pesar pelo sofrimento e morte dos mesmos e ansiedade para confiar aos outros um segredo que ainda provoca humilhação e medo. Um problema sério está surgindo: alguns se rebelam ou buscam independência pulando ou abandonando a medicação, o que pode fazer com que o HIV saia do controle e se torne imune a terapias que antes eram eficazes.

"Ainda não acabou", diz Ellen Cooper, diretora médica do departamento de Aids em crianças e adolescentes do Boston Medical Center, sobre manter esses jovens vivos e saudáveis. Apesar de não ter perdido nenhum paciente em cinco anos, ela afirma estar "esperando uma segunda onda" desses jovens que "morrem por não manterem a medicação" ou por causa de complicações decorrentes do tratamento. Davi Morales é o tipo de jovem que preocupa os médicos. Ele tem deficiência cognitiva relacionada ao HIV e passou meses morando nas ruas depois que os tios que o criavam em um projeto habitacional em Providence, Rhode Island, tiveram que retornar a Porto Rico.

Davi, 20, perdeu o auxílio por invalidez porque o governo agora considera a maioria das pessoas infectadas pelo HIV capazes de trabalhar, segundo relata Scott Mitchel, orientador do centro de assistência "Aids Care Ocean State", que conseguiu um apartamento para o jovem morar. Entretanto, Davi tem dificuldade de permanecer empregado, seguir regras ou trabalhar com agentes. "Eu não acho que neste momento ele tenha condições de trabalhar e se sustentar", afirma Mitchel. Além disso, os cinco comprimidos que ele toma por dia lhe causam insônia e diarreia.

Hoje em dia, as pessoas que contraem o HIV por meio de sexo ou drogas podem tomar um comprimido facilmente tolerável, mas aquela geração de bebês que nasceu com HIV normalmente precisa de múltiplas doses, com efeitos colaterais irritantes, o que aumenta a probabilidade de abandono da medicação. No desespero, os médicos às vezes preferem autorizar o cancelamento completo da medicação para aqueles que não levam a sério o tratamento.

Davi fala que deseja permanecer vivo, mas "talvez meu tempo de vida não seja tão longo quanto o de uma pessoa normal. Eu nasci assim e é assim que as coisas são". De acordo com Rena Greifinger, que fundou o projeto "One Love Project" para ajudar os jovens soropositivos, as coisas ficam mais difíceis à medida que os bebês com HIV crescem e perdem os cuidados de programas e clínicas pediátricas. "Aos 18 anos, todo o apoio desaparece, além de alguns deles serem completamente rejeitados por suas famílias e considerados crianças leprosas", diz ela.

Durante um retiro de uma semana na Universidade Babson, em Wellesley, Massachusetts, o "One Love" desenvolveu terapia com música, interpretação de papéis sobre a revelação de ser portador do HIV e discussões sobre sexo e filhos. O encontro abriu os olhos de Sandy Perez, 18, de Canaan, New Hampshire. Sua mãe, infectada pelo uso de drogas, morreu quando Sandy tinha 7 anos. Segundo ela, algumas famílias adotivas a maltrataram. Em uma das casas, ela era mal alimentada e dormia trancada na lavanderia. Sandy conta que saía pela janela e retornava pela garagem da casa para pegar comida.

Apesar de agora viver com uma família amorosa e tomar sua medicação regularmente, ela ainda experimenta sintomas de magreza excessiva. A medicação causou diabetes e problemas no fígado e nos rins. Sandy raramente revela ser portadora do HIV, nem mesmo para os namorados, embora sempre use preservativos. Mas ela disse que a reunião "me inspirou para ficar à vontade comigo mesma e admitir ser portadora do HIV, algo que agora posso compartilhar com as pessoas nas quais confio".

Ela resolveu falar sobre a doença a seu namorado de dois anos, com o qual nunca teve relacionamento sexual. Incapaz de contatá-lo por telefone durante a conferência, ela enviou uma mensagem de texto: "Eu tenho HIV". Ele respondeu: "Sério?" Ela respondeu: "Sim". Sandy se sentiu aliviada: "Se ele não soubesse e fosse infectado, eu me sentiria responsável e culpada". Logo depois, o relacionamento acabou, mas ela disse que "ele não soube lidar com o problema. Ele se acalmou e nós conseguimos conversar, ele ficou feliz por eu ter lhe contado antes que fizéssemos algo".

Quando a família Cosgrove adotou Tom, ele era uma criança nervosa e indisciplinada. Aos 5 anos, ficou ainda mais traumatizado quando viu sua mãe mudar de cor, perder o cabelo e morrer de Aids. Então colocou o obituário dela em sua lembrança da primeira comunhão e "tinha pesadelos e terrores noturnos. Fiquei bravo porque achei que ela tinha me passado a doença de propósito", conta ele.

Segundo Barbara Cosgrove, as pessoas têm pavor de adotar essas crianças. Ela adotou quatro outros "bebês rejeitados" e confessa ter sofrido abusos na infância e também ter sido rejeitada. Todos os quatro, que chegaram sem terem feito testes de HIV, não eram portadores do vírus. "Eu realmente me senti sozinho", diz Tom. Aos 9 anos, após a morte de um amigo com HIV, ele implorou para que eles adotassem alguém como ele.

A família então adotou Tyree, que tinha dois tipos de HIV, um de cada um dos pais, além de retardo no desenvolvimento. Durante anos, ele tomou a medicação por meio de uma sonda estomacal, pois caso contrário vomitava. Atualmente com 11 anos, Tyree usa aparelho ortopédico nas pernas e possui uma quantidade de vírus muito alta em seu sangue.

A adoção de Tyree não melhorou as coisas para Tom, e ele conta que ficou "fora de controle por anos". Para domar o comportamento do menino, Barbara precisou "derrubá-lo no chão e dizer: 'Você não vai falar desse jeito, não vai agir desse jeito'. Um dia eu o arrastei pelo tapete e a professora dele telefonou, então contei o que fiz e por quê."

Aos 12 anos, Tom melhorou, mas ainda se irritava com as reações das pessoas. Barbara informou à escola sobre ele ser portador do HIV e organizou uma reunião com os pais. Apesar do apoio da escola, alguns pais e colegas de classe o evitavam. Tyree frequenta outra escola, cujo diretor a orientou a não fazer a revelação, pois os pais poderiam reagir mal. O treinador de futebol da escola lhe disse: "Nós não treinamos crianças assim".

Tyree conta que se sente sozinho, pois nenhum de seus amigos o visita. Ele até já aprendeu a proteger os outros, dizendo: "Não faça sexo comigo". Mais maduro e consciente, Tom ainda considera sua vida complicada. A infecção foi suprimida pela medicação e ele resolveu ingressar em um programa de capacitação profissional. Porém, os efeitos colaterais dos remédios afetam a memória e seus namoros não duram muito tempo porque "as pessoas não querem sair com um portador desta doença". Mesmo assim, ele acredita que "se minha família adotiva pode me aceitar como sou, outras pessoas também podem fazer o mesmo".

Fonte: Pam Belluck, do "THE NEW YORK TIMES"

Foto: Ator norte-americano Rock Hudson, uma das primeiras vítimas famosas do vírus HIV - Divulgação

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Canções de Chico Buarque inspiram microssérie na Globo

O casamento de Ary está nas últimas. Uma briga com a mulher desencadeia a peregrinação pelos bares de São Paulo. Ele corre a avenida Paulista, desce a rua Augusta, alcança o viaduto do Chá, passa pelo edifício Copan. Nessa busca por sabe-se lá o quê, ele conhece Vera. A companhia é agradável. O sexo, inesquecível. Paixão instantânea. No dia seguinte, vem a conta: Vera é prostituta, ele não sabia. E cobra de Ary a noitada --ironicamente, a mais romântica que ele teve nessa sua triste vida.

Assim, resumido, o argumento de "Folhetim", um dos quatro episódios da microssérie "Amor em Quatro Atos", que estreia na TV Globo em janeiro, parece até ter sido inspirado por algum conto de "A Vida como Ela É", de Nelson Rodrigues. Mas não. Foi a letra da canção homônima de Chico Buarque (aquela dos versos: "Se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim") que conduziu o roteiro do episódio, trouxe seus personagens e, no fim, que vai render sua trilha sonora.

O mesmo vai acontecer com os versos de "Vitrines", "Mil Perdões", "Construção" e "Ela Faz Cinema", canções de Chico em que os roteiristas Antonia Pellegrino, Marcio Alemão Delgado, Estela Renner e Tadeu Jungle foram buscar as outras histórias. O projeto foi criado por Rodrigo Teixeira, que comprou os direitos de dez canções de Chico para este e outros fins.

PACOTE CHICO

Já está publicado, pela Cia. das Letras, o livro "Essa História Está Diferente", em que dez escritores criaram contos sobre as músicas do compositor. Baseado em "Olhos nos Olhos", Karim Aïnouz está produzindo o longa "Eclipse da Violeta" para o cinema. "Amor em Quatro Atos" completa o pacote na TV. Coprodutora do projeto, a Globo disponibilizou alguns de seus atores para a série.

Entre eles estão Carolina Ferraz, Malvino Salvador, Vladimir Brichta, Alinne Moraes, Marjorie Estiano, Dalton Vigh e Camila Morgado. A supervisão geral ficou sob os cuidados de Roberto Talma. A direção foi dividida entre Talma ("Mil Perdões"), Tadeu Jungle (capítulo que une "Construção" e "Ela Faz Cinema") e Bruno Barreto.

Barreto é o único que assina dois episódios. O cineasta está tratando "Folhetim" e "Vitrines" como duas metades de uma única história. Um longa de 80 minutos. Depois que se apaixonar pela prostituta em "Folhetim", Ary passa todo o episódio "Vitrines" obcecado por ela. Segue seus passos às escondidas, como diz a canção, "catando a poesia que [ela] entorna no chão".

"Outro dia, brinquei com o Chico [Buarque]", conta. "Nos anos 70, ele fez uma música ['O que Será'] para o meu filme 'Dona Flor e Seus Dois Maridos'. Agora, faço um filme para músicas dele. Enfim, estamos quites". Se o formato pegar, podemos esperar canções de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Jobim virando histórias em futuras noites da Globo.

Fonte: Marcus Preto/Folha de S.Paulo

Foto: Divulgação

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Quase metade das empresas violam direitos humanos, diz pesquisa

O Instituto Norberto Bobbio divulgou  os resultados da pesquisa "Direitos Humanos nas Empresas", desenvolvida pela consultoria Plano CDE, especializada no universo das classes C, D e E, e com apoio da BMF&Bovespa. O levantamento abordou temas como estilo de gestão, participação do funcionário, critérios de promoção e ocorrência de desrespeito e maus tratos.

A Plano CDE ouviu 800 profissionais de empresas com mais de 50 funcionários, no Rio de Janeiro e São Paulo, que atuam no comércio, indústria, bancos (e outras atividades financeiras), e serviços não financeiros como educação, saúde e telemarketing. Segundo a pesquisa, 43% dos entrevistados declararam que ocorreram situações moderadas ou graves de violação dos direitos humanos no último ano no ambiente de trabalho.

Considerando somente as violações graves, que incluem declarações explícitas de preconceitos, agressões verbais e/ou físicas, roubo e assédio sexual, 9% dos funcionários disseram que esses abusos ocorreram em seu local de trabalho. Especificamente em relação às atitudes discriminatórias, 11% disseram que em suas empresas existe discriminação contra negros, mulheres, homossexuais ou idosos, e 7% disseram que já foram vítimas diretas de preconceito. “As abordagens mais discriminatórias foram registradas com mulheres, negros e profissionais com salário inferior a R$ 3 mil”, diz Haroldo Torres, sócio-diretor da consultoria Plano CDE.

“Ainda acontecem atitudes como humilhação e preconceito de raça e gênero em companhias de diversos setores e tamanhos”, diz Raymundo Magliano, presidente do Instituto Norberto Bobbio. “Com esse estudo fica clara a urgência de o tema dos diretos humanos passar a compor o conjunto das preocupações centrais das empresas brasileiras”, diz. De acordo com a pesquisa, 38% dos entrevistados afirmam que as opiniões dos funcionários não são levadas em conta; 30% entendem que alguns chefes tratam os subordinados de maneira desrespeitosa; 21% declararam que alguns colegas são maltratados; 38% disseram não entender os critérios de promoção; e 44% afirmaram que há salários diferentes para a mesma função.

Por segmento
A indústria apresenta os melhores índices de respeito aos direitos humanos. Os resultados da pesquisa mostram que no segmento 84% dos entrevistados consideram que são tratados com mais educação e mais de 76% sentem que suas opiniões são levadas em conta. Já os serviços não financeiros apresentam a pior avaliação em todos os quesitos, registrando os maiores índices por maus tratos e pela falta de clareza nos critérios de promoção, 25% e 46%, respectivamente.

O levantamento aponta ainda que mais de 50% dos funcionários do setor de bancos e serviços financeiros sentem desconforto com políticas de valorização do mérito, mencionando o pagamento de salários diferentes para quem tem o mesmo tipo de atividade, formação e tempo de casa. Para Torres, uma possível explicação deve ser o fato de que setores com sindicatos fortes e atuantes contribuem para que as empresas tratem seus funcionários de maneira mais respeitosa.

Fonte: G1

Foto: Divulgação

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Escavações resgatam ferrovia Madeira/Mamoré em Rondônia

O pedaço de louça achado pelos arqueólogos, fragmento de um jarro que se quebrou em algum momento dos anos 1910, tem dois carimbos diferentes indicando sua procedência: o de uma firma brasileira, provavelmente a importadora, e o do fabricante escocês, de Edimburgo.

"Este lugar era extremamente cosmopolita. Havia caribenhos de Barbados, alemães, italianos, ingleses", conta o arqueólogo britânico Alastair Richard Threfall, enquanto tenta explicar a sucessão de camadas de detritos na antiga vila de Santo Antônio do Madeira (RO).

No começo do século 20, esse canto então remoto da Amazônia, perto da atual Porto Velho, era crucial para a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.Planejada para escoar a produção de borracha dos seringais brasileiros e bolivianos, a via férrea logo se tornou irrelevante com a queda dos preços do produto no mercado internacional. Agora, Threfall e seus colegas estão usando os dados arqueológicos para entender a ocupação-relâmpago que acompanhou a chamada "ferrovia do diabo".

As escavações, sob responsabilidade da empresa Scientia Consultoria Científica, fazem parte do pacote de compensações exigidas por lei para a construção de um grande empreendimento --no caso, a Usina Hidrelétrica Santo Antônio, no rio Madeira. O trecho da vila escavado pelos cientistas não será impactado diretamente pela usina e pode, inclusive, virar uma espécie de museu a céu aberto quando a obra terminar. "É um sítio de alto potencial", diz o arqueólogo Renato Kipnis, sócio da Scientia e coordenador do trabalho.

Por enquanto, a equipe está centrando esforços num conjunto de construções na margem da antiga ferrovia. Vários dos prédios não chegaram a ser fotografados, embora constem em mapas da época. "A questão é que nem sempre o mapa reflete o cenário da época, ele pode ser apenas reflexo de um projeto para a área", diz Threfall. Com base nos dados já obtidos, os pesquisadores já conseguem fazer uma primeira tentativa de reconstruir a sequência de ocupação e abandono no local.

"Sabemos que o muro desta estrutura, provavelmente residencial, recobriu toda esta área quando caiu, o que nos dá uma altura de uns 3,5 m para o prédio quando estava de pé. Depois, o concreto ficou misturado ao sedimento", diz o britânico, que é casado com uma mineira. Uma área mais elevada ao lado abrigava o que parece ser um escritório ou loja. "A arquitetura é mais imponente, parece que eles estavam querendo causar boa impressão", afirma Threfall.

Construída a duras penas, com centenas de trabalhadores europeus vitimados pela malária - daí a fama macabra -, a ferrovia acabou sendo fechada nos anos 1960. Pistas vindas da área escavadas pela equipe indicam um período de florescimento ainda mais curto, de 1914 aos anos 1940, diz o arqueólogo.

Fonte: Reinaldo José Lopes/Folha de S.Paulo

Foto: Divulgação

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Lei do Audiovisual tem que mudar, diz diretor de "Tropa de Elite 2"

A estreia maiúscula de "Tropa de Elite 2" --o longa se aproxima dos 3 milhões de espectadores, com apenas uma semana em cartaz - dá fôlego à pretensão do cineasta José Padilha de impulsionar mudanças na lei brasileira de incentivo ao cinema. Padilha avalia que "no modelo de financiamento do cinema brasileiro há algo intrinsecamente errado". Trata-se dos termos em que é dividida a renda dos filmes entre produtores e distribuidores --estes últimos são os responsáveis pelo lançamento dos longas nas salas.

"No modelo norte-americano, o distribuidor banca o filme. Se [o diretor Francis Ford] Coppola vai fazer 'O Poderoso Chefão', o distribuidor coloca o dinheiro da produção e do p&a [sigla da expressão em inglês print and advertising, que designa a impressão das cópias do filme e a propaganda para lançá-lo]. O distribuidor corre todo o risco, e o risco molda as cláusulas do contrato", diz.

Já no Brasil, "a maior parte do dinheiro de um filme vem do produtor. Num longa de R$ 10 milhões, um distribuidor pode colocar até R$ 3 milhões [usufruindo da lei de incentivo ao audiovisual] e o produtor, até R$ 7 milhões".

"O p&a é pequeno no Brasil. 'Tropa de Elite' [2007], que custou R$ 11 milhões, teve R$ 1 milhão de p&a. Houve muito mais dinheiro colocado pelo produtor do que pelo distribuidor. Isso é verdade para todos os filmes. O contrato feito entre o produtor e o distribuidor no Brasil é igual ao norte-americano. Na minha opinião, há uma distorção aí", afirma Padilha.

Para testar um modelo que "modifica as relações de força econômica entre a produção e a distribuição", Padilha abriu mão de um distribuidor para "Tropa de Elite 2". Decidiu lançar o filme com o selo de sua produtora, a Zazen, e contratou um "coordenador de lançamento", o especialista em distribuição Marco Aurélio Marcondes.

A performance de "Tropa de Elite 2" nos cinemas vem se configurando como um êxito sem precedente recente no mercado brasileiro. "Queremos que todo mundo veja os números dessa experiência. Contratamos uma auditoria. No final, teremos um relatório para mostrar o retorno que isso dá. Se funcionar, poderá servir de substrato para uma política pública. O governo olha e diz: 'De fato, esse modelo é legal. Vamos mudar as leis.'"

Antes de levar a discussão ao governo, Padilha buscará apoio de seus pares. "Funcionando, vou passar a mão no telefone, ligar para os produtores brasileiros, para a Total [da franquia "Se Eu Fosse Você"], a Lereby [de Daniel Filho], a O2 [de Fernando Meirelles] e propor que a gente se junte e faça uma distribuidora. Estou otimista", diz.

Jorge Peregrino, executivo da Paramount, que distribuiu "Tropa de Elite" em 2007, disse à Folha que desconhece os termos da proposta de Padilha e, por isso, prefere não comentá-la. Manoel Rangel, presidente da Agência Nacional do Cinema, diz que, "se essa experiência for um grande sucesso, todo mundo, inclusive o governo, vai ter que parar para ouvir o José Padilha".


Fonte: Silvana Arantes/Editora-adjunta da Folha Ilustrada


Foto: Divulgação

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Smartphones substituem GPS nos carros

Novas tecnologias que permitem que celulares sejam usados como GPS avançaram ainda mais, o que pressiona as fabricantes de aparelhos de navegação embutidos.O grupo do setor automobilístico alemão Consumer Electronics for Automotive (CE4A) apresentou um novo padrão para a tecnologia, que vem ganhando força com incentivo da Nokia, maior fabricante de celulares do mundo.

A indústria de aparelhos de navegação, liderada pelas europeias TomTom e Garmin, levou um duro golpe da concorrência de smartphones com GPS.Quando este novo padrão for incluído em automóveis – algo que deve acontecer a partir do ano que vem –, ele permitirá que consumidores simplesmente conectem seus smartphones ao carro, sem que tenham maiores problemas para configurar seus aparelhos de navegação, além de terem acesso a outras funções de seus celulares através de uma tela embutida no veículo.

O uso amplo da tecnologia ainda deve levar um tempo, segundo analistas e executivos do setor."O impacto imediato disso será limitado, mas se o consumidor tiver uma experiência positiva com o uso do celular para navegação no carro, isso elimina a necessidade de um aparelho separado", disse o analista Tim Shepherd, da Canalys.A Navteq, maior empresa de mapeamento digital do mundo, afirmou que vê um grande interesse pela tecnologia na indústria.

Fonte: Reuters
Foto: Divulgação